A semana que passou trouxe dois sinais que não podemos ignorar: a escalada no Oriente Médio (ataques ao Irã) e o ruído crescente nas relações comerciais com a China. Para quem trabalha com foodservice no Brasil, essas notícias não são apenas manchetes internacionais — são avisos de que o custo operacional vai mudar, e em breve.
Deixa-me ser clara: não estamos falando de apocalipse, mas de um reajuste estrutural que vai exigir decisões rápidas de quem quer manter margem e relevância nos próximos seis meses.
O primeiro golpe: diesel e frete
Quando o petróleo fica volátil, o diesel sobe. E quando o diesel sobe, o frete sobe. Isso não é teoria — é física de mercado.
O Brasil depende de diesel para tudo: transporte de insumos, distribuição para centros de distribuição, entregas nas lojas e restaurantes. Uma operação de refeições coletivas com 50 unidades espalhadas pelo Sudeste sente isso na semana seguinte. Uma rede de QSR com delivery sente ainda mais rápido.
O que vejo acontecer agora é que os transportadores, já pressionados por regras de piso mínimo proposto pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), vão usar a volatilidade do petróleo como justificativa para reajustes mais agressivos. E, sinceramente, eles têm razão. A diferença é que você precisa estar preparado para negociar com cláusulas de gatilho, não para aceitar reajustes desproporcionais.
O segundo golpe: câmbio e importações
Na intensificação dos conflitos, nas próximas duas a três semanas encararemos um momento de risco global. Com o real desvalorizado, tudo que vem de fora fica mais caro.
Trigo? Importado. Parte dos lácteos? Importada. Aditivos, embalagens, resinas plásticas? Importados. Operações de panificação relevantes ou com alto consumo de descartáveis podem sentir essa movimentação de custos rapidamente.
O trigo é particularmente sensível porque o Brasil não é autossuficiente — importamos cerca de 60% do que consumimos, assim, quando o câmbio se mexe, a farinha sobe em dias, não em semanas.
O terceiro golpe: proteína e fertilizante
Aqui entra a China. Com tensões comerciais com os EUA, a China está comprando mais do Brasil — soja, milho, carnes. Isso é bom para o agronegócio exportador, mas ruim para quem precisa de proteína no mercado doméstico.
Quando a indústria de carnes prioriza exportação, o mercado spot fica apertado. Preços sobem. Disponibilidade cai. Quem compra sem contrato sofre.
Mas tem mais: fertilizantes. O Brasil importa 85% dos fertilizantes que usa. A ureia (nitrogenado) subiu 16% em um ano. Isso aumenta o custo de produção de soja e milho, que aumenta o custo de ração, que aumenta o custo de frango e suíno. Esse ciclo leva de três a quatro meses para chegar ao seu cardápio, mas chega.
O que fazer agora?
1. Frete e logística
Renegociar contratos com empresas transportistas, com inteligência. Sem aceitar reajustes abertos. Propor cláusulas de gatilho: “Se o diesel subir acima de X%, reajustamos em Y%”. Consolidar entregas, reduzir rotas picadas, trabalhar com janelas de entrega mais amplas. Quem conseguir reduzir frequência de entrega em 20% economizará muito mais que em qualquer negociação de preço.
2. Proteína
Se o seu negócio não tem contrato de 90 dias com seus fornecedores de carne, é o momento ideal para fazer. Travar volume e faixa de preço é a diferença entre margem previsível e surpresa desagradável. Para quem tem refeições coletivas, isso é crítico — os clientes corporativos não aceritam reajustes frequentes.
3. Trigo e farinha
Para quem tem panificação, padaria ou usa muito empanado, é importante trocar parte do seu fornecimento para contrato junto aos moinhos. Não precisa ser 100%, mas se for entre 60% e 70% de volume contratado, já se reduz volatilidade.
4. Estoque estratégico
Aumentar estoque de segurança em não perecíveis críticos: óleo, arroz, farinha, itens secos. Isso custa capital de giro, mas custa menos que uma ruptura ou reajuste emergencial.
Menu engineering não é luxo, é necessidade
Aqui está o ponto que muitos ignoram: seu cardápio é sua ferramenta de proteção.
Se você tem 40% de receita em proteína animal, você está exposto. Se conseguir reduzir para 30% sem perder ticket médio, você ganha. Isso não significa tirar carne do cardápio — significa ser criativo: combinações, porções, acompanhamentos, pratos com melhor elasticidade de preço.
A conversa com o cliente – mercado refeições corporativas
Se você vende refeições coletivas para empresas, essa conversa precisa acontecer agora, não em três meses.
Fundamental ser transparente e usar um discurso nessa linha: “O cenário internacional mudou. Fertilizantes, combustível e câmbio estão pressionando custos. Vamos manter a qualidade, mas precisamos de uma política de reajuste mais frequente — mensal ou bimestral, com indicadores objetivos (diesel, câmbio, preço de proteína).”
Clientes corporativos entendem isso melhor do que você imagina. O que eles não aceitam é surpresa.
O que não fazer
Não congelar preços esperando que tudo normalize. Não aumentar demais o estoque de perecíveis. Não ignorar fornecedores secundários — qualificar um segundo fornecedor por categoria crítica agora, enquanto ainda há tempo.
A geopolítica não é responsabilidade do foodservice, mas seus efeitos são.
Se o cenário atual avanças, os próximos 30 dias são de ação tática (frete, contratos, estoque). Os próximos seis meses são de ajuste estrutural (menu, fornecedores, política de preço). Essa é uma visão que visa te ajudar a se manter alerta. Enquanto tudo ainda está em ritmo de “acontecimento”, com o cenário se consolidando, quem se mexer com velocidade vai pagar com margem.
Avante!
Cristina Souza é cofundadora e CEO da Tanjerin.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato















