Menos renda, mais dívida e a pressão crescente no bolso do consumidor do foodservice

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Historicamente, o consumo do foodservice sempre apresentou forte correlação com o nível de emprego no Brasil: quando a taxa de desemprego aumentava, o consumo reduzia, e quanto mais pessoas estavam empregadas, maior era o tráfego do setor. Após a pandemia, essa correlação perdeu força.

Atualmente, a taxa de desemprego está em patamares historicamente baixos, o rendimento médio real está em suas máximas históricas, mas o tráfego do setor não apresenta reação positiva, com queda trimestre a trimestre em comparação ao ano anterior.

Já é conhecido que o tráfego é o desafio estrutural. Se o nível de emprego perdeu seu impacto positivo sobre o consumo, o que está represando seu potencial de crescimento no Brasil? Para avaliar os impactos da renda, dos preços e do endividamento sobre o consumo das famílias no foodservice, a Gouvêa Inteligência preparou e executou modelos econométricos representado pelo tráfego. A análise foi segmentada entre os períodos pré e pós-pandemia, com a exclusão de 2020 e 2021, anos marcados por outliers e comportamentos atípicos nas variáveis.

Pressão no bolso, pressão no caixa

Antes da pandemia, renda e preços exerciam pressões opostas sobre o consumo do foodservice, mas com importâncias diferentes. A renda tinha um peso nove vezes superior ao dos preços no poder de decisão do consumidor – ou seja, aumentos de renda mais do que compensavam eventuais aumentos de preços. Para o consumidor, havia vantagem no ato da compra. Para os operadores e a indústria, o preço era utilizado como importante alavanca de margem.

No pós-pandemia, renda e preços continuaram a exercer papel central na decisão de consumo, mas com pesos e impactos diferentes. O consumidor se tornou muito mais sensível à renda e, principalmente, aos preços, cujo aumento da sensibilidade (o que chamamos de elasticidade) praticamente passou a anular qualquer efeito positivo decorrente do aumento da renda.

Essa maior sensibilidade aos preços tirou o potencial de alavancagem de margem que o setor carregava antes da pandemia, criando desafios financeiros para consumidores, operadores, a indústria e toda a cadeia de valor do setor.

A essa nova equação de valor do consumo somam-se os efeitos negativos da inadimplência crescente, que hoje afeta mais de 80 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Serasa Experian. A inadimplência entra no modelo como um componente com impacto negativo sobre o consumo, amplificando os efeitos negativos dos preços. Além disso, a inadimplência tem potencial de gerar efeitos defasados sobre o consumo ao longo do tempo. Ou seja, com o aumento do número de inadimplentes, os efeitos poderão ser ainda piores sobre o consumo futuramente.

Endividamento e a compressão da classe média

Em artigo recente, o CEO da Gouvêa Inteligência, Eduardo Yamashita, apresentou dados que mostram a compressão preocupante da classe média no Brasil, historicamente o motor do consumo de valor agregado no Brasil. O mesmo padrão se repete no foodservice.

Todas as classes sociais (A, B, C, D e E) perderam espaço no consumo do setor, afetadas pelo endividamento e pelos preços, cujos impactos são distintos sobre cada perfil de renda.

O aumento de preços passou a ter impacto mais negativo sobre todas as classes sociais no pós-pandemia, em comparação com os anos anteriores a 2020. Porém, esse aumento foi muito mais sentido pelas classes C, D e E. Para a classe A, os preços passaram a exercer um efeito negativo três vezes maior, enquanto para as classes C, D e E, o efeito negativo do aumento de preços se tornou 13 vezes pior após a pandemia.

As classes C, D e E são um público com renda menor e mais comprometida e representam cerca de 75% da população brasileira (de acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) – ou seja, quaisquer efeitos negativos sobre o seu consumo afetarão fortemente o mercado, seja o de foodservice, seja o de outros setores de varejo e serviços. A esse cenário, soma-se a maior inadimplência proporcional desse público, o que amplifica os impactos negativos sobre o consumo.

O que aprendemos?

Os preços perderam seu poder de alavancar margens, e hoje os consumidores estão muito mais sensíveis a eles. Dessa forma, a renda também deixou de impulsionar o consumo com a mesma força. . A combinação de compressão da classe média e aumento da inadimplência reduziu o potencial de compra de grande parte da população, impactando diretamente o foodservice e outros setores. Ainda assim, a renda não deixou de ser relevante — apenas passou a operar sob maior pressão.

Apesar de encontrar um contrapeso mais forte nos preços e na inadimplência, a renda ganhou maior peso sobre o poder de decisão, e destravar essa equação de valor é o que pode diferenciar a oferta de um operador e permitir o seu crescimento.

O consumidor se tornou mais sensível ao preço e à renda, portanto, os preços devem carregar cada vez mais valor agregado: competitividade, promoções, descontos, mais conveniência e, também, experiências que valham o valor gasto pelo consumidor. O que o consumidor busca hoje é uma melhor relação custo-benefício para fazer valer sua renda e o dinheiro gasto.

Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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