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Home Artigos

Por que as empresas estão treinando mais e aprendendo menos?

Roberta Andrade de Roberta Andrade
9 de julho de 2026
no Artigos, Notícias
Tempo de leitura: 5 minutos

Paradoxalmente, muitas organizações convivem com uma sensação frustrante: treinam cada vez mais, mas percebem pouca mudança na prática.

Muitas vezes, recursos e planejamento não faltam! Plataformas digitais se multiplicaram, universidades corporativas foram fortalecidas, catálogos de cursos se expandiram, workshops presenciais acontecem com maior frequência e o acesso ao conhecimento nunca foi tão amplo.

Os colaboradores assistem aos conteúdos, participam, concluem os cursos, recebem certificados e, poucos dias depois, voltam exatamente aos mesmos comportamentos.

Se o treinamento aconteceu, se foi tão bom, todos saíram de lá energizados, por que a aprendizagem não aconteceu no dia a dia de trabalho?

A resposta talvez esteja em uma confusão que as empresas vêm alimentando há décadas: informação não é aprendizagem!

Aprender não é um ato isolado

Executivos ao redor do mundo se queixam de que a escassez de talentos afeta os planos de inovação, que a falta de profissionais qualificados limita oportunidades de crescimento e causa vulnerabilidade técnica, sobrecarregando as equipes atuais. O problema aqui é: se estão desenvolvendo seus times atuais, estão fazendo da forma errada.

Muitas empresas ainda sustentam seu mindset e processos de ensino/aprendizagem baseados em metodologias behavioristas antigas, desenvolvidas nos anos de 1920 e 1940, que valorizavam majoritariamente instruções, transmissão de conhecimento e repetições contínuas como forma de aprimorar habilidades.

O objetivo era que especialistas compartilhassem informações com grupos de colaboradores, na expectativa de que isso fosse suficiente para gerar mudança.

Esse modelo funcionou durante muitos anos porque o acesso à informação era limitado. Quem detinha conhecimento possuía uma vantagem competitiva.

Hoje, a realidade é completamente diferente. O mundo mudou, o comportamento das pessoas, a forma como se relacionam e, consequentemente, como aprendem também sofreu transformações.

Com poucos recursos e alguma curiosidade, qualquer profissional pode acessar conteúdos técnicos, assistir a especialistas do mundo inteiro, consultar pesquisas, utilizar ferramentas de inteligência artificial e encontrar respostas em questão de segundos.

A informação deixou de ser escassa. O diferencial competitivo passou a ser outro: a capacidade de transformar informação em ação. E é justamente nesse ponto que muitas iniciativas de treinamento falham.

O maior desafio vem depois do treinamento

O maior desafio dos RHs e das lideranças é fazer com que aquilo que foi aprendido seja incorporado à rotina. É ir além do conteúdo, de modo que o novo aprendizado vire ação e parte da cultura de trabalho.

Basta observar o que acontece após um treinamento: na primeira semana, existe entusiasmo; na segunda, surgem as urgências do dia a dia; na terceira, a operação volta a tomar conta da rotina. Pouco tempo depois, grande parte do conteúdo já foi esquecida.

Não porque o treinamento era ruim. Mas porque aprender exige muito mais do que consumir conteúdo. Aprender exige prática, experimentação, reflexão, troca de experiências e feedback contínuo.

O cérebro aprende pela experiência

Um estudo realizado pela Josh Bersin Company com 800 organizações em 60 países demonstrou que 76% das empresas têm baixa maturidade de aprendizagem corporativa. O que isso significa?

Que a maioria ainda está focada em treinamentos pontuais e estáticos, sejam eles presenciais ou escaláveis com o apoio de uma plataforma LMS.

Todos ainda muito pautados em reações sobre alguma demanda ou exigência pontual, sem olhar para a companhia de forma integrada e sistêmica, e sem aterrissagem na rotina das equipes.

Pessoas precisam trocar continuamente suas experiências para solidificar aprendizagem em profundidade. É na aplicação que o cérebro cria novas conexões. É no erro que ele ajusta estratégias. É na discussão com outras pessoas que amplia perspectivas. E é no feedback que refina comportamentos.

Por isso, empresas que concentram seus investimentos apenas em cursos acabam enfrentando um retorno limitado. Elas desenvolvem eventos de aprendizagem, mas não constroem ecossistemas de aprendizagem. E existe uma enorme diferença entre essas duas abordagens.

Enquanto isso, apenas 24% das empresas possuem o time de T&D como parceiros consultivos e estratégicos do negócio, incentivando, premiando e reconhecendo a aprendizagem informal por meio de projetos relevantes para a companhia, tanto quanto a aprendizagem formal.

Indicadores de pessoas precisam ser avaliados e considerados com o mesmo peso que os demais indicadores do negócio. Não existem mais fronteiras entre aprendizagem, gestão do conhecimento e a rotina do trabalho. E a Inteligência Artificial potencializa essa dinâmica de inovação e desenvolvimento contínuo.

A força da aprendizagem social

Um dos movimentos mais relevantes da educação corporativa é a valorização da aprendizagem social. Isso significa reconhecer que boa parte do que aprendemos acontece nas interações com outras pessoas.

Aprendemos quando observamos colegas, debatemos soluções, compartilhamos boas práticas, analisamos erros, construímos respostas coletivamente para problemas reais.

As organizações mais inovadoras têm percebido que o conhecimento não precisa estar concentrado apenas em especialistas externos ou em grandes programas de treinamento.

Ele já existe dentro da empresa e está distribuído entre vendedores, gerentes, supervisores, compradores, analistas e líderes que enfrentam desafios semelhantes todos os dias.

O papel da organização passa a ser criar mecanismos para que esse conhecimento circule de forma estruturada.

Da transmissão para a construção coletiva

Essa mudança exige também uma transformação no papel da liderança. O gestor deixa de ser apenas aquele que acompanha indicadores e distribui tarefas. Ele passa a atuar como facilitador do aprendizado da equipe.

Em vez de oferecer respostas prontas, centralizar a tomada de decisão ou ensinar sozinho, o líder que estimula a aprendizagem no dia a dia de trabalho é aquele que estimula perguntas, cria espaços para a reflexão e promove conexões entre pessoas que podem aprender umas com as outras.

É assim que surgem ambientes onde a aprendizagem deixa de ser um evento pontual e passa a fazer parte da rotina.

Aprendizagem precisa acontecer no fluxo do trabalho

Outro equívoco comum é imaginar que aprender exige interromper o trabalho. Na verdade, as organizações mais maduras fazem exatamente o contrário. Elas incorporam pequenos momentos de aprendizagem ao cotidiano operacional.

Importante que esses momentos sejam incorporados à rotina, como parte de seus rituais, tais como reuniões de quinze minutos para compartilhar boas práticas, análise coletiva de um atendimento bem-sucedido, um feedback estruturado após uma negociação, uma discussão sobre indicadores da semana ou uma comunidade de prática entre líderes de diferentes unidades.

Esses momentos parecem simples, mas possuem enorme capacidade de acelerar o desenvolvimento das equipes. Quando aprender faz parte do trabalho, o conhecimento deixa de competir com a operação e passa a fortalecê-la.

Um novo modelo para uma nova realidade

É justamente dessa necessidade que surgem metodologias estruturadas de aprendizagem por comunidade, como o método PULSO, desenvolvido com exclusividade pela Friedman by Gouvêa Ecosystem.

Mais do que oferecer conteúdos, esse modelo busca criar um ambiente em que o aprendizado acontece por meio da conexão entre pessoas, da troca de experiências, da experimentação prática, da reflexão conjunta e da construção contínua de conhecimento.

A lógica deixa de ser: “alguém ensina e todos escutam”. E passa a ser: “todos aprendem, todos contribuem e todos evoluem”.

Em um cenário de mudanças aceleradas, essa diferença é decisiva.

O verdadeiro indicador não é horas de treinamento

É preciso parar de medir o sucesso da educação corporativa pela quantidade de horas treinadas ou pelo número de colaboradores certificados. Esses indicadores continuam importantes, mas já não são suficientes.

A pergunta que realmente importa é outra: o que mudou no comportamento das pessoas depois que aprenderam?

Se nada mudou, talvez o problema não esteja na qualidade do conteúdo. Talvez esteja na forma como entendemos a própria aprendizagem e o quanto ela realmente está enraizada na cultura da companhia.

As empresas que apresentam as melhores perspectivas de crescimento são aquelas capazes de criar uma cultura em que aprender faz parte do trabalho, compartilhar conhecimento é um hábito e desenvolver pessoas deixa de ser responsabilidade exclusiva do RH para se tornar um compromisso de toda a liderança.

Imagem: Freepik

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Roberta Andrade

Roberta Andrade é diretora-executiva da Friedman by Gouvêa Ecosystem. Desenvolve pessoas há mais de 10 anos, gerando aumento de produtividade, performance, processos e resultados por meio de múltiplos canais em empresas dos mais diversos segmentos na indústria, distribuição, atacado, varejo e serviços.

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