A decisão do governo federal de extinguir a chamada taxa das blusinhas acendeu um alerta no, reconhecidamente, maior polo de moda do País. O Bom Retiro, tradicional centro de produção e comércio de vestuário em São Paulo, movimenta cerca de R$ 5,3 bilhões por ano, produz aproximadamente 50,5 milhões de peças anualmente e concentra 19,4 mil trabalhadores em um único bairro da capital paulista. Os dados são do Censo do Bom Retiro – Indústria e Varejo 2025, realizado pela Abiv (Associação Brasileira da Indústria do Vestuário) e IEMI.
A Abiv emitiu nota de repúdio sobre o fim da taxação, pois teme perda de competitividade diante do avanço das plataformas internacionais de e-commerce. “Vamos reagir com firmeza”, afirmou Cinthia Kim, presidente da entidade, em entrevista à Mercado&Consumo. A preocupação é ainda maior porque boa parte da produção nacional de moda está justamente na faixa de até US$ 50, diretamente impactada pelo fim da tributação sobre compras internacionais em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. “O Censo mostra isso”, disse Cinthia. Segundo a essa pesquisa, cerca de 95% das confecções do polo do Bom Retiro são pequenas e médias empresas.
Além disso, 93,2% operam em formato de loja e 97% possuem produção própria, modelo altamente dependente da cadeia doméstica de confecção. Portanto, uma ameaça especialmente aos menores. Na avaliação da entidade, o governo volta a ampliar a desigualdade tributária entre empresas nacionais e estrangeiras justamente em um momento de juros elevados, consumo mais pressionado e desaceleração do consumo – endividamento familiar e bets pioram o quadro. A associação afirma que seguirá atuando junto ao Congresso Nacional em busca de medidas para reduzir a assimetria competitiva do setor. “Voltamos a competir em uma situação de grande desvantagem”, disse Cinthia.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Cinthia Kim à Mercado&Consumo:
Mercado&Consumo — Como a ABIV recebe a notícia do fim da “taxa das blusinhas”?
Cinthia Kim — A Abiv vê essa medida com muita preocupação porque ela impacta diretamente empresas brasileiras que produzem, empregam e investem no País. No caso do Bom Retiro, por exemplo, a grande maioria dos produtos comercializados está justamente na faixa de até US$ 50. Ou seja: estamos falando de concorrência direta com plataformas internacionais que passam a operar em condições ainda mais favoráveis.
Como o polo do Bom Retiro recebeu o fim da taxa?
Com preocupação. O Bom Retiro é formado majoritariamente por pequenas e médias empresas e depende fortemente da produção nacional. As empresas esperam das entidades ações concretas para tentar minimizar os impactos dessa medida sobre os negócios e sobre toda a cadeia produtiva da região.
O avanço das plataformas asiáticas tende a acelerar novamente?
Sim. Essas plataformas deixam de pagar imposto de importação e passam a ampliar ainda mais sua vantagem competitiva. Enquanto isso, empresas brasileiras continuam convivendo com elevada carga tributária, juros altos, custos logísticos e um ambiente regulatório complexo. Ao beneficiar plataformas estrangeiras, o governo acaba penalizando principalmente micro e pequenas empresas nacionais.
O setor volta a enfrentar um cenário de assimetria tributária.
Sem dúvida. A taxa das blusinhas era uma tentativa de reduzir parte dessa desigualdade competitiva. Com a revogação, voltamos a competir em uma situação de grande desvantagem. Segundo dados do IEMI, 81% das peças de roupa comercializadas no varejo brasileiro custam menos de US$ 50, então o impacto para o setor de moda tende a ser muito relevante.
Existe risco para produção e emprego na cadeia de moda?
Existe, embora ainda seja difícil mensurar neste momento. Se houver perda de volume de vendas, empresas terão de rever investimentos, produção e quadro de funcionários. Uma consequência possível é que parte da indústria de confecção busque alternativas fora do Brasil para conseguir competir em condições menos desiguais.
Que medidas a Abiv considera necessárias agora?
A Abiv seguirá atuando junto ao Congresso Nacional e às autoridades competentes em defesa da isonomia competitiva. O que buscamos é assegurar que empresas nacionais e estrangeiras estejam sujeitas, no mínimo, às mesmas regras e condições de competição.
Imagem: Bruno Chicaroni















