Buscando inspirações: o que as visitas técnicas em Nova York revelam sobre o futuro do foodservice

Todos os anos, o NRA Show transforma Chicago no principal centro global de discussões sobre foodservice, varejo alimentar, tecnologia e hospitalidade. Mas, para muitos executivos do setor, parte importante dos aprendizados acontece antes mesmo da abertura oficial da feira.

Não à toa, anualmente, a Gouvêa Ecosystem organiza e participa de delegações para o evento, realizando inúmeras visitas técnicas a diferentes tipos de operações na cidade. Em busca de inspirações e para fugir do padrão, neste ano, iniciamos as atividades em Nova York, com uma agenda intensiva de visitas técnicas em uma cidade considerada um dos principais laboratórios para o foodservice.

Em um cenário em que experiência, conveniência e curadoria passam a valer tanto quanto o produto em si, inclusive impulsionando suas vendas, visitas técnicas a operações emblemáticas ajudam a entender como tendências globais ganham forma na prática. Mais do que “lugares famosos”, espaços como Rockefeller Center, Breads Bakery, Kesté Pizza & Vino, Printemps New York e Industry City funcionam como exemplos vivos de movimentos que também começam a impactar o mercado brasileiro.

Rockefeller Center: um ícone ensinando sobre integração

Para além do turismo, o Rockefeller Center representa um movimento importante do varejo e do foodservice: a transformação de grandes centros urbanos em locais de integração de experiência, conveniência e permanência.

Nos últimos anos, o complexo passou por um importante reposicionamento, investindo em gastronomia, ativações culturais, eventos temporários e operações voltadas à permanência do consumidor. Em vez de apenas “capturar fluxo”, o objetivo passou a ser gerar tempo de permanência qualificada e conexão emocional.

Esse conceito dialoga diretamente com uma das grandes discussões do NRA Show: o foodservice como plataforma de experiência. Restaurantes, cafeterias e mercados deixam de competir apenas por produto e passam a disputar atenção, repertório cultural e relevância urbana.

Para o Brasil, há aprendizados claros. Empreendimentos como o Cidade Matarazzo mostram que o País também começa a entender alimentação como elemento central de ativação imobiliária e construção de comunidade. A lógica muda: não basta mais ter praça de alimentação. É necessário criar ecossistemas de convivência.

Breads Bakery: o artesanal escalável

A Breads Bakery se tornou referência global ao unir produção artesanal, excelência técnica e capacidade operacional. O sucesso da marca ajuda a explicar outra tendência forte do foodservice mundial: o consumidor continua valorizando autenticidade, mas espera consistência e conveniência.

A operação é um excelente estudo sobre o que denominamos de upscaling acessível. O ambiente comunica simplicidade, mas cada detalhe reforça a percepção de qualidade: ingredientes, exposição dos produtos, ritmo operacional, design visual e comportamento da equipe.

Em um momento em que o NRA Show deve aprofundar debates sobre automação, eficiência operacional e Inteligência Artificial, a Breads Bakery mostra que tecnologia e artesanal não são conceitos opostos. Pelo contrário, processos eficientes ajudam justamente a preservar padronização e qualidade em escala.

No Brasil, marcas como Le Pain Quotidien, Fabrique e Padoca do Maní caminham nessa direção, buscando equilibrar percepção artesanal com capacidade de expansão, além de operação financeiramente sustentável.

O aprendizado central: o novo luxo alimentar não está necessariamente na sofisticação extrema, mas na sensação de autenticidade.

Kesté Pizzeria: tradição como diferencial competitivo

Em um mercado obcecado por inovação, a Kesté Pizza & Vino representa um contraponto interessante. Seu diferencial está justamente na preservação radical da tradição napolitana.

A operação ajuda a ilustrar um fenômeno crescente no foodservice global: a valorização de identidade cultural e origem como ativos competitivos – um aspecto que a Gouvêa vem levantando há alguns anos, a importância do twist entre novidade e familiaridade. Em um ambiente saturado por conceitos genéricos, autenticidade passa a gerar diferenciação real.

O consumidor busca cada vez mais marcas com narrativa forte, propósito claro e repertório cultural legítimo. Não basta “parecer artesanal” ou “parecer italiano”; o público percebe inconsistências rapidamente.

O paralelo brasileiro é evidente em operações que transformam regionalidade em valor agregado. Casas que trabalham culinária mineira, italiana, amazônica ou nordestina com profundidade conseguem gerar experiência memorável justamente porque entregam história, não apenas produto.

Nesse contexto, a Kesté mostra algo importante para operadores brasileiros: tradição não é resistência à modernidade. É posicionamento. E vale um adendo: esse aspecto se relaciona com o artesanal e qualidade mencionados para a Breads Bakery.

Printemps: quando varejo, gastronomia e lifestyle viram uma coisa só

A chegada da Printemps New York reforça um dos movimentos mais relevantes do varejo global: o fim das fronteiras entre retail, hospitalidade e foodservice.

As novas lojas de departamento de luxo já não funcionam apenas como espaços de compra. Tornam-se ambientes de descoberta, experiência social e construção de marca. A alimentação ganha papel estratégico nesse processo – não à toa, há anos a Gouvêa observa esse movimento em suas visitas à NRF e ao NRA Show, observando esses diferenciais na Nordstrom, Willis Tower, para mencionar alguns exemplos sem se estender demais.

Esse é um tema alinhado às discussões mais recentes do NRA Show, especialmente sobre “eatertainment”, experiência omnichannel e convergência entre consumo físico e digital.

No Brasil, esse movimento ainda acontece de maneira mais tímida, mas já aparece em operações premium que entendem gastronomia como ferramenta de branding. Não é coincidência que cafeterias, wine bars e restaurantes tenham se tornado peças centrais em projetos de varejo contemporâneo.

Industry City: o futuro nasce dos ecossistemas

Talvez nenhum dos locais simbolize melhor o futuro do foodservice quanto o Industry City. O complexo mistura gastronomia, manufatura criativa, varejo independente, escritórios, eventos e cultura urbana em um modelo que privilegia colaboração e descoberta.

O espaço funciona quase como uma “cidade experimental” do novo consumo. Pequenas marcas convivem com operações consolidadas, permitindo testes rápidos, inovação constante e forte senso de comunidade.

Esse tipo de ecossistema dialoga diretamente com uma transformação importante do setor: as grandes tendências não surgem apenas das grandes corporações, mas também de operadores independentes capazes de testar comportamentos emergentes com velocidade.

Para o mercado brasileiro, o aprendizado é poderoso e com inúmeras oportunidades: revitalização de regiões, criação de hubs criativos podem se beneficiar enormemente dessa lógica de integração entre gastronomia, cultura e economia criativa.

O foodservice deixa de ser apenas um destino de consumo e passa a atuar como catalisador urbano – como pudemos analisar, sob diferentes óticas, no Rockefeller Center e na Printemps.

Mais do que tendências, sinais de transformação

Visitas técnicas pré-feira têm valor justamente porque ajudam a enxergar algo que os estandes nem sempre conseguem mostrar: como as tendências se comportam no mundo real, para além das palestras e dos dados.

Os locais visitados em Nova York apontam para algumas convergências importantes:

  • Experiência como ativo central;
  • Autenticidade como diferencial competitivo;
  • Integração entre varejo, gastronomia e entretenimento;
  • Valorização de comunidade e permanência;
  • Operações desenhadas para gerar relevância cultural, não apenas transações.

É premente perceber que muitas dessas discussões já começam a ganhar força no Brasil, mas com amplo espaço e oportunidades de desenvolvimento. Em um mercado cada vez mais competitivo e pressionado pela necessidade de eficiência crescente, talvez o maior aprendizado não seja copiar formatos internacionais, mas entender os movimentos culturais e comportamentais por trás deles – e como tropicalizá-los.

O futuro do foodservice provavelmente será menos sobre “onde as pessoas comem”, e mais sobre onde elas desejam estar.

Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Reprodução

Eduardo Bueno

Eduardo Bueno

Economista formado pela USP e pós-graduado em Gestão de Projetos pelo Insper, atualmente é coordenador de projetos na Mosaiclab e responsável pelo projeto CREST no Brasil. Tem experiência no mercado financeiro, consultoria macroeconômica, Analytics, Compras, além de implementação de projetos de SAP. Atua com inteligência de mercado desde 2015 e, desde 2017, com o setor de Foodservice, com passagem em um dos maiores operadores do setor no país.

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