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Home Economia

Livro Homo Longevus, de Luiz Paulo Foggetti, discute como a longevidade vai redesenhar a economia

Autor lança hoje título que trata a vida mais longa como uma força capaz de alterar previdência, carreira, família, varejo e economia

Bruna Lencioni de Bruna Lencioni
15 de junho de 2026
no Destaque do dia, Economia, Notícias
Tempo de leitura: 7 minutos

Viver mais deixou de ser apenas uma questão de saúde. Para Luiz Paulo Foggetti, autor de Homo Longevus: O Guia do Longo Prazo para o Século 22, lançado hoje, a longevidade será uma das forças capazes de redesenhar a economia nas próximas décadas. O avanço da expectativa de vida tende a mudar a forma como as pessoas trabalham, consomem, se relacionam, cuidam do corpo, planejam a aposentadoria e constroem patrimônio.

“Você terá uma população em que uma parte relevante da renda e do número de pessoas estará acima dos 55 anos. Isso precisa ser tratado de um jeito que ainda não foi”, afirma Foggetti, em entrevista à Mercado&Consumo.

O livro parte da pergunta “E se a vida durasse até 120 anos?” para discutir não apenas a biologia do envelhecimento, mas os impactos sociais, econômicos e comportamentais de uma vida radicalmente mais longa. A obra aborda temas como trabalho, previdência, relacionamentos, família, espiritualidade, solidão, saúde, morte e economia prateada.

Engenheiro formado pela Escola Politécnica da USP, com MBA pelo Insead, na França, Foggetti construiu carreira como executivo e empreendedor, com atuação no Brasil e no exterior. Foi head internacional da FMC para Europa e Ásia, head global de Crop Protection na Louis Dreyfus e CEO da Small Batches. A experiência em diferentes mercados, somada à reflexão sobre envelhecimento e finitude, deu origem ao livro.

A obra tem prefácios de quatro nomes ligados à saúde, longevidade, empreendedorismo e negócios: João Toniolo Neto, médico geriatra; Walter Feldman, médico e presidente do Fórum da Longevidade; Marcos Gouvêa de Souza, especialista em varejo e fundador da Gouvêa Ecosystem; e Caio Auriemo, médico e empreendedor.

A motivação para escrever o livro veio de três gatilhos pessoais: a chegada aos 50 anos, uma entrevista com Walter Feldman sobre longevidade e a observação da própria mãe, hoje com 86 anos, diante de um filho de 12. “Esses três estalos juntos impulsionaram uma discussão muito grande comigo sobre o que é longevidade e para onde ela vai”, afirma Foggetti.

Para o autor, a discussão sobre longevidade ainda costuma ficar excessivamente concentrada em saúde. No livro, porém, esse é apenas um dos eixos. A proposta é olhar para os impactos de uma vida mais longa em diferentes dimensões da existência.

“A discussão do livro é olhar os outros campos. O campo da morte, do tédio, do relacionamento, da CLT, das compras. O que está acontecendo que a gente não está olhando?”, disse.

Segundo Foggetti, a expectativa de vida média do brasileiro, hoje em torno de 77 anos, pode avançar de forma relevante nas próximas décadas, impulsionada por saneamento, medicina preventiva, academias, nutrição, novas tecnologias e medicamentos. O autor trabalha com a hipótese de que viver até os 100 anos, ou mais, deixará de ser exceção para uma parcela crescente da população.

“Você vai conviver com várias identidades suas ao longo dos anos. Como é conviver com você diferente ao longo da jornada?”, afirma.

O livro parte dessa provocação para discutir o que muda em uma sociedade na qual as pessoas passam mais tempo vivas, produtivas e consumidoras. A chamada economia prateada aparece como um dos pontos centrais da reflexão. Para Foggetti, o mercado ainda não entendeu plenamente o potencial econômico de uma população madura, ativa, com renda e disposta a consumir produtos, serviços e experiências pensados para sua fase de vida.

“Existe uma obsessão com a juventude. Ninguém ainda entendeu que o 50 é cool, que o 60 é cool”, afirma.

Na avaliação dele, o varejo, os serviços, a indústria de beleza, o mercado fitness, o setor de saúde, o mercado imobiliário, a educação e até segmentos ainda tratados como tabu serão impactados por essa mudança demográfica. A vida mais longa exigirá produtos e soluções para pessoas que querem continuar trabalhando, aprendendo, se relacionando, cuidando do corpo e mantendo autonomia.

“A academia só vai crescer. Se você vai viver mais, quer viver mais bonito, com mais autoestima. Mudou todo o jogo”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Mercado&Consumo – O livro fala de longevidade, mas não apenas sob a ótica da saúde. Qual é a discussão central?
Luiz Paulo Foggetti – A saúde é um pedaço pequeno do livro. O rico do livro é olhar outros campos: morte, tédio, relacionamento, CLT, compras. A premissa é que hoje o brasileiro médio vive 77,8 anos, mas, com algumas melhorias, pode viver muito mais. Isso muda tudo. Você terá uma população em que uma parte relevante da renda e do número de pessoas estará acima dos 55 anos. Isso precisa ser tratado de um jeito que ainda não foi.

Como o livro está estruturado?
A primeira parte discute por que falar de uma vida de 120 anos. Isso não é uma ficção distante. Está mais perto da nossa mão. Depois, entro em temas como relacionamento, trabalho, tédio, solidão, espiritualidade, saúde e morte. Se você vai viver 120 anos, talvez tenha mais de um parceiro ao longo da vida. Talvez mude de profissão aos 50 ou 60. Talvez precise estudar de novo. Tudo isso muda.

O que muda no trabalho?
Se você for contador, talvez não aguente ser contador por 50 anos. Com 50 anos, pode decidir ser médico, dar aula, mudar de área. A forma de ver o mundo profissional muda. A CLT, do jeito que está, já está vencida. Em uma vida mais longa, teremos novos acordos e novas formas de remuneração. Uma pessoa de 80 anos pode querer trabalhar dois dias por semana em uma empresa e, em outro dia, contribuir em outro projeto.

A aposentadoria também muda?
A aposentadoria vai ser empurrada para frente. Isso é inevitável. A previdência, no modelo atual, é insustentável. O primeiro movimento será prolongar a idade de aposentadoria. O segundo será flexibilizar relações de trabalho. O terceiro será entender que atualização profissional será constante. Acabou a ideia de fazer faculdade uma vez e nunca mais se atualizar.

O livro também trata de relacionamentos. Como uma vida mais longa impacta o casamento?
Em uma vida de 120 anos, você vai ter que ser muito bom para aguentar seu esposo ou sua esposa por 80 anos, e ela te aguentar também. É muito provável que as pessoas tenham mais de um parceiro ao longo da vida. Isso muda o relacionamento, muda a família, muda o direito, muda herança, muda regime de casamento. São impactos jurídicos e emocionais muito grandes.

Você fala também de solidão e tédio. Por quê?
Porque você vai viver mais com o tédio e mais com a solidão. A solidão é dramática para o corpo. É um tema de saúde também. Como conviver com esses dois “animais”? Essa é uma discussão importante. Se a vida fica mais longa, não basta viver mais. É preciso entender o que dá sentido a esse tempo adicional.

O livro traz provocações fortes, inclusive sobre morte e eutanásia. Por que entrar nesse tema?Porque é inevitável. A religião, de alguma forma, segurou essa discussão. Mas, se você chega aos 95 anos, talvez cansado, talvez doente, talvez sem seus entes queridos, surge a discussão sobre o direito de ir. É um tema pesado, mas a longevidade obriga a sociedade a olhar para isso.

Sua vivência na Suíça influenciou essa visão?
Sem dúvida. A Suíça é muito racional e respeita muito a liberdade individual. Ver uma sociedade longeva, com pragmatismo para encarar os fatos, influenciou bastante. Parte do livro não é latina. É uma visão mais pragmática sobre vida, morte, direito, família e trabalho.

Qual é a relação entre longevidade e economia prateada?
Tudo isso é economia prateada. Quando falo de sex shop, de senior living, de centros de convivência, de clínicas, de trabalho, de educação continuada, estou falando de economia prateada. Só que quis tratar o tema de forma mais profunda. O mercado ainda não percebeu totalmente que 50 e 60 anos podem ser fases desejáveis, produtivas, consumidoras. Quando entenderem que uma parte relevante do dinheiro estará nessa geração, tudo muda.

O mercado brasileiro está preparado?
O Brasil procrastina decisões. Sabemos que a previdência está quebrada, sabemos que a CLT não serve como está, mas postergamos a discussão. Do lado positivo, temos uma cultura de corpo, cosmético, academia e cuidado que é muito superior à de muitos países. Isso ajuda. Existe uma cultura brasileira de malhar, de tratar pele, cabelo, corpo. Esse será um fator importante para chegarmos mais longe.

Você rejeita a ideia de que “os 50 são os novos 40”?
Eu acho que os 50 são os 50 de hoje. Não gosto de dizer que são os novos 40. O 50 de hoje é diferente, tem outros formatos, outros convívios, outras possibilidades. Não precisa ser comparado com outra idade.

Para quem o livro foi escrito?
Para qualquer cidadão acima de 40 anos que já refletiu um pouco sobre finitude. Quem já pensou “um dia isso acaba” pode ler o livro. Mas também é um livro para jovens, gestores, legisladores, profissionais de saúde e qualquer pessoa que queira se preparar para o futuro.

Serviço:
Livro: Homo Longevus: O Guia do Longo Prazo para o Século 22
Autor: Luiz Paulo Foggetti
Lançamento: hoje, 15 de junho
Horário: 19h
Local: Café Jornal — Alameda dos Anapurus, 1121
Editora: Editora do Autor
Número de páginas: 180
Preço: R$ 89
Prefácios: João Toniolo Neto, Walter Feldman, Marcos Gouvêa de Souza e Caio Auriemo
Onde comprar online: Amazon
Mais informações: @homolongevus

Imagens: Divulgação

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