A rápida popularização das plataformas de apostas online, popularmente conhecidas como bets, que incluem as apostas esportivas (cerca de 20% do total) e os jogos do tigrinho e cassinos online (cerca de 80% do total), transformou o cenário do entretenimento digital no Brasil em um piscar de olhos. No entanto, o que é vendido como uma diversão inofensiva ou até mesmo uma “oportunidade de investimento” vem se revelando uma das crises socioeconômicas e de saúde pública mais silenciosas e severas dos últimos tempos.
A questão é bastante complexa e, antes de seguirmos adiante, alguns dados são importantes: o volume de dinheiro em apostas é gigantesco e não transita apenas nas bets oficiais, cujos nomes/marcas ouvimos e vemos nas TVs, rádios e eventos. Ele também transita nas bets ilegais, que, segundo pesquisas, concentram de 35% a 40% do total das apostas. Os sites das bets ilegais são ainda mais agressivos em induzir as pessoas a se tornarem apostadores contumazes, e a Secretaria de Prêmios e Apostas derruba semanalmente milhares de sites ilegais, que, como num passe de mágica, surgem nas mesmas quantidades ou em volume ainda maior nos dias seguintes.
É difícil dimensionar qual o montante de dinheiro que fica retido nas bets. Tomando-se a arrecadação de impostos gerada pelas bets regulamentadas/oficiais, as notícias publicadas estimam em cerca de R$ 10 bilhões em 2025. Como a regulamentação do setor obriga as bets a devolverem, no mínimo, 85% do total apostado – e atualmente há uma devolução maior, em torno de 91% -, pode-se estimar que somando-se as bets legais mais as ilegais, teremos algo como R$ 30 bilhões retidos mensalmente nelas.
Este montante de dinheiro no ecossistema de apostas impacta negativamente o País em três grandes frentes interligadas: a economia doméstica, a estrutura social e a saúde mental da população.
Com relação à primeira frente, há um rombo econômico, que vai do varejo ao endividamento familiar. O crescimento meteórico das apostas tem drenado recursos que antes circulavam no comércio de bens e serviços. O mercado de apostas esportivas no Brasil movimenta estimativas alarmantes que vão de R$ 300 bilhões a R$ 400 bilhões por ano. E este dinheiro direcionado aos jogos digitais sai diretamente do orçamento familiar.
As classes mais vulneráveis são as D e E, nas quais as apostas já representam cerca de 1,38% do orçamento familiar, um salto drástico em relação aos anos anteriores. Famílias estão deixando de consumir roupas, calçados e até itens de mercado e medicamentos para manter o fluxo de apostas. De acordo com dados do mercado de proteção ao crédito, cerca de 86% dos apostadores frequentes acumulam dívidas, e 64% estão negativados, com restrições de crédito.
Com relação ao impacto social, as perdas financeiras rapidamente transbordam para as relações familiares. O jogo compulsivo, cujo nome técnico é ludopatia, opera sob uma dinâmica de segredo: o jogador tende a se isolar, esconder dívidas e sentir vergonha, o que reforça ainda mais o comportamento compulsivo.
Esse comportamento gera destruição da confiança familiar. O endividamento oculto frequentemente resulta em conflitos conjugais, divórcios e perda de patrimônio familiar; vulnerabilidade de jovens e menores, afinal, mesmo com restrições legais para quem não tem 18 anos, a facilidade de acesso a smartphones e o uso de contas de terceiros expõem crianças e adolescentes precocemente aos gatilhos psicológicos do jogo; e comprometimento do futuro financeiro, uma vez que quase 11 milhões de brasileiros apostam em níveis que colocam em risco direto suas finanças e sua estabilidade social a longo prazo.
Por último, mas não menos importante, existe a questão da saúde pública. As bets são desenhadas para serem altamente aditivas, e suas interfaces dinâmicas, os reforços visuais e o sistema de recompensas variáveis, o “quase ganhar”, liberam picos massivos de dopamina no cérebro, simulando o mesmo mecanismo de dependência química de substâncias ilícitas.
O transtorno do jogo patológico já é tratado como um problema de saúde pública de primeira ordem. Um dossiê recente lançado pela Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental revelou números assustadores sobre os custos indiretos que o vício em bets impõe ao País: perdas humanas e impactos relacionados ao suicídio geram um custo social estimado de R$ 17 bilhões por ano; a perda de qualidade de vida associada à depressão severa resulta em um custo social estimado de R$ 10 bilhões anuais; e os custos diretos do SUS com tratamentos psicológicos/psiquiátricos chegam a R$ 3 bilhões por ano.
Esses dados evidenciam que a arrecadação de impostos gerada pela regulamentação do setor, como dissemos, estimada em cerca de R$ 10 bilhões em 2025, é amplamente superada pelos custos colaterais com que o Estado e as famílias precisam arcar para tratar os danos psicológicos e sociais causados pelas plataformas.
As bets deixaram de ser um mero nicho de lazer para se transformar em um dreno econômico e uma epidemia de saúde mental. Enquanto os lucros das plataformas são frequentemente escoados para corporações internacionais com sedes em paraísos fiscais, os prejuízos humanos, sociais e de saúde ficam no orçamento público e no seio das famílias brasileiras.
O governo federal tem aumentado o enfrentamento desse cenário, ampliando a fiscalização sobre as bets ilegais, criando restrições aos participantes do sistema que apoiam a operação das bets ilegais. Tem, ainda, dado os primeiros passos sobre a regulação das campanhas de divulgação e uso das mídias digitais, tornando-as mais restritas, entre outras medidas. Mas ainda é pouco. É necessário promover campanhas mais fortes de conscientização massiva e a ampliação de redes de acolhimento psicológico no SUS para tratar o vício antes que ele comprometa ainda mais a estrutura do País, principalmente porque o risco de crescimento das bets poderá ser potencializado pelos Estados, uma vez que a atual lei que regula o setor permite que tenham as bets estaduais, e alguns Estados já estão adiantados em estruturar mais esta forma de jogos e apostas e arrecadação de impostos. Já imaginaram como poderá ficar a questão?
No Congresso Nacional há dezenas de Projetos de Lei que vão desde a proibição total das bets até regulamentações muito brandas, infelizmente permitindo sua existência e crescimento. Esperamos que os legisladores tenham um lampejo de realidade e tomem as iniciativas adequadas para o bem do País.
Jorge Gonçalves Filho é presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV).
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
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