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Discutir jornada neste momento é inoportuno, míope e eleitoreiro. E traz consequências diretas e indesejáveis para o varejo e serviços

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
23 de fevereiro de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 5 minutos
Discutir jornada neste momento é inoportuno, míope e eleitoreiro. E traz consequências diretas e indesejáveis para o varejo e serviços

Produtividade é o único caminho provado de evolução do bem-estar social para permitir geração e distribuição de riqueza.

O tema precisa ser analisado numa perspectiva mais abrangente e estratégica, sem qualquer partidarismo político e ideológico e considerando o que é importante para a Nação.

O debate sobre jornada nesta altura do jogo ignora, com claro objetivo eleitoreiro, a variável central do quanto o Brasil e a população ganhariam se melhorássemos produtividade antes de reduzir dias e horas trabalhados.

E os números mostram o quanto é míope a visão de que se possa reduzir jornadas e horas trabalhadas antes de produzir e distribuir.

A produtividade média no Brasil é das mais baixas quando comparada aos países da OCDE e até mesmo quando comparada com alguns países da América do Sul.

Discutir jornada neste momento é inoportuno, míope e eleitoreiro. E traz consequências diretas e indesejáveis para o varejo e serviços

Fatos e números

A forma usual de medir produtividade para países é a produção total medida pelo PIB e considerando o volume de trabalho em termos médios por horas ou pessoas empregadas.

Para comparar diferentes economias, usa-se o PIB por hora trabalhada em US$ ajustado por PPP – Paridade de Poder de Compra.

O PIB brasileiro está na ordem de R$ 10 trilhões. Com cerca de 100 milhões de pessoas ocupadas e usando esses critérios, em média, o trabalhador brasileiro produz cerca de US$ 21,2 por hora trabalhada, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho.

Esse dado coloca o Brasil, uma das 10 maiores economias do mundo, na 94ª posição entre os 184 países avaliados e é até abaixo de outros da América do Sul.

Na média dos países da OCDE, a produtividade por hora, dentro dos mesmos critérios, está em torno de US$ 70. Na Irlanda, esse valor é de US$ 149,3; na Noruega, de US$ 132,3; nos EUA, de US$ 97; na Alemanha, de US$ 93,8; na Holanda, de US$ 94,4; e, na Suécia, de US$ 89,2.

Na América do Sul, pelo mesmo critério e fonte, o Uruguai atinge US$ 38, o Chile, US$ 34,4; e a Argentina, US$ 33,8.

Diagnóstico objetivo

Reduzir horas não gera mais riqueza e nem bem-estar social de forma automática, pois a pergunta essencial não é feita: já produzimos o suficiente para sustentar essa redução?

Produtividade é função de capital investido por trabalhador, tecnologia incorporada, competência na gestão de negócios, escalas alcançadas e, principalmente, qualificação profissional.

Em termos muito práticos e diretos, reduzir horas sem esses elementos significa aumentar custo unitário dos produtos, pressionar despesas, forçar aumento de preços, gerar inflação, além de reduzir competitividade e, de quebra, estimular a informalidade.

E temos a questão que envolve a discrepância entre setores econômicos em termos de eficiência, desempenho, resultados e produtividade. Ela deveria desestimular, por absoluto bom senso, qualquer forma de imposição generalista de normais desprezando as diferenças setoriais e regionais.

Retrato setorial brasileiro

Usando dados comparativos das Contas Nacionais e tomando como parâmetro a produtividade como a relação entre o Valor Adicionado Bruto e o número de horas trabalhadas daquele setor, e considerando o Brasil como índice 100, temos comparações setoriais que mostram sensíveis diferenças.

O setor de Petróleo & Gás tem produtividade na faixa 350–500; o Sistema Financeiro, de 250 a 300; Energia, 220 a 260; Indústria de Transformação, 120 a 150; Agropecuária, 110 a 140; Comércio e Varejo, 60 a 80; e Serviços Pessoais, 40 a 60.

Na prática, a constatação é que setores intensivos em capital e tecnologia são mais eficientes e atividades dependentes de mão de obra derrubam a média.

E é exatamente nos setores do comércio, varejo e serviços pessoais que a redução de jornada teria maior impacto de custos, desequilíbrio e estímulo à informalidade.

Bem-estar não nasce da redução de horas trabalhadas

O fator fundamental é a capacidade de gerar renda sustentável.

Países que reduziram jornada ao longo da história o fizeram depois de ganhos relevantes de produtividade e não atropelaram o processo. Exemplos de Alemanha, Estados Unidos, Dinamarca, Holanda e Coréia do Sul mostram de forma clara esse processo.

Tentar inverter essa ordem, seja com que pretexto for, vai produzir desequilíbrio e distorções, pressionar a inflação e estimular a informalidade, em especial no setor trabalhista. Sem considerar o aumento do Custo Brasil e a perda da competitividade no cenário internacional. E sem falar no aumento inevitável na litigância trabalhista.

Importante lembrar que vivemos um momento de apagão de mão de obra com um dos menores índices de desemprego da série histórica e ainda com a distorção gerada pelos programas assistenciais, em especial o Bolsa Família, que atende perto de 20 milhões de famílias envolvendo pouco mais de 50 milhões de pessoas.

Programas como Bolsa Família são fundamentais para reduzir problemas sociais, mas como está configurado reduz o estímulo ao trabalho e o desenvolvimento profissional e traz indesejável distorção, pois inibe o emprego formal, aumenta a informalidade e reduz a contribuição previdenciária, incubando uma situação que se tornará explosiva à frente.

Para concluir

Reduzir horas e jornadas, proposta cativante e atraente usada com objetivos eleitoreiros, deveria ser de forma objetiva e estratégica uma consequência do aumento da produtividade e da prosperidade. E não o inverso.

O Brasil não precisa trabalhar menos.

Precisa produzir mais, com mais tecnologia, capacitação, investimentos e eficiência. Elementos que são críticos no setor privado, mas que na absoluta maioria das vezes são minimizados no setor público.

A redução da jornada, da forma como está proposta neste momento, tem como maior mérito deslocar a discussão de temas sensíveis para algo que demanda análise muito mais profunda, estrutural e estratégica, e sem inversão de premissas.

De forma abrangente e pensando na Nação, sem produtividade a redução de jornada é custo e distorção. Com eficiência, capacitação, tecnologia e produtividade, será consequência natural.

Nota: Muitos ensinamentos devem ser compartilhados depois do Retail Trends 2026 e tudo o que aconteceu pré, durante e pós NRF com a delegação do Ecossistema Gouvêa, que reuniu líderes dos setores de varejo, consumo e serviços do Brasil. O que se conheceu e aprendeu nas visitas técnicas realizadas por lá durante os dias que antecederam o evento, na reunião de abertura e suas provocações no Google, nas discussões e aprendizados da própria NRF, o que foi debatido no Retail Executive Summit no Tik Tok ainda em NY e mais tudo isso trazido para a realidade brasileira no pós-NRF estão condensados no playbook “A reinvenção do varejo em tempos de IA”, realização da Mercado&Consumo com curadoria do Ecossistema Gouvêa, que pode ser obtido por este link. E existe também a possibilidade de discutir e avaliar impactos no âmbito de cada empresa ou negócio com o programa In Company Gouvêa, às vezes em poucas horas. O programa pode ser acessado neste link.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: ChatGPT

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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