Uma transformação silenciosa já começou a acontecer dentro das organizações e ela não está centrada na discussão de como incorporar Inteligência Artificial (IA) à operação, nos algoritmos ou na criação de agentes inteligentes. Essa transformação é guiada pela mudança do papel das lideranças.
Há cerca de um ano já se levanta a possibilidade da fusão ou integração das áreas de RH e TI até 2030. Mas uma pesquisa realizada pela Comp e publicada em maio desse ano, respondida por 335 CHROs, revelou que essa ainda é uma realidade bem distante da perspectiva de futuro levantada em 2025.
Ainda há um abismo entre as empresas que usam IA apenas como ferramenta para melhoria de produtividade individual e poucas a aproveitam como inteligência de qualidade para acelerar tomada de decisão com foco no negócio. Pensar como IA-Native é diferente de ser IA-First – a questão central é usar IA para acelerar o desenvolvimento das pessoas que formam a comunidade corporativa e sustentam cultura e resultados. “A distinção parece sutil, mas define quem vai construir vantagem competitiva na gestão de pessoas nos próximos anos”, segundo menção de publicação na Forbes (“A virada que o RH brasileiro ainda não fez com a IA”).
A lógica é simples: se parte da força de trabalho passará a ser composta por agentes de IA, quem desenvolve pessoas também precisará compreender como desenvolver, orquestrar e potencializar esse novo ecossistema híbrido. Esse movimento chama atenção porque revela uma mudança muito maior do que a adoção de uma nova tecnologia. Estamos redesenhando a forma como o trabalho acontece.
Durante décadas, liderar significava organizar pessoas, distribuir responsabilidades, acompanhar indicadores, desenvolver competências e garantir que as equipes executassem a estratégia. Esse papel continua existindo, mas ganhou uma nova camada de complexidade.
Além de desenvolver pessoas, líderes passarão a coordenar sistemas inteligentes capazes de executar atividades analíticas, operacionais e até criativas. A gestão deixa de envolver apenas equipes humanas e passa a considerar um ambiente formado por pessoas, dados e agentes digitais trabalhando de maneira integrada. Essa talvez seja a verdadeira reconfiguração do trabalho.
A Inteligência Artificial não elimina a importância da liderança. Ao contrário, amplia sua responsabilidade. Quanto mais tarefas são automatizadas, maior se torna o valor das competências que permanecem essencialmente humanas, tais como pensamento crítico, capacidade de julgamento, leitura de contexto, tomada de decisão, construção de confiança e desenvolvimento de talentos. Nenhuma dessas competências deve ser delegada a um algoritmo.
Isso ajuda a explicar por que tantas empresas investem em IA, mas ainda encontram dificuldade para capturar todo o potencial da tecnologia. O desafio raramente está na ferramenta. Está na capacidade da organização de adaptar sua cultura, seus processos e, principalmente, seu modelo de liderança.
A transformação digital sempre foi, antes de tudo, uma transformação humana. Agora isso se torna ainda mais evidente.
Existe outro aspecto que merece atenção: se a IA democratiza o acesso ao conhecimento e acelera a execução de inúmeras atividades, o diferencial competitivo deixa de ser quem possui mais informação. Passa a ser quem consegue aprender mais rápido.
Essa mudança altera profundamente o papel do RH. Tradicionalmente responsável por atrair, desenvolver e engajar pessoas, o RH assume uma função ainda mais estratégica: preparar a organização para aprender continuamente em um ambiente de mudanças permanentes.
Não se trata apenas de capacitar colaboradores para utilizar novas ferramentas. Trata-se de desenvolver uma nova alfabetização profissional. Uma alfabetização que combina domínio tecnológico, pensamento crítico, colaboração, ética, capacidade analítica e aprendizagem contínua.
É justamente por isso que gosto de provocar uma reflexão: talvez estejamos fazendo a pergunta errada! Em vez de perguntar como implementar Inteligência Artificial, deveríamos perguntar como preparar líderes capazes de conduzir organizações onde humanos e agentes inteligentes trabalham lado a lado.
A diferença parece sutil, mas muda completamente a perspectiva. Quando colocamos a liderança no centro da discussão, percebemos que o verdadeiro desafio não é tecnológico, é organizacional, cultural e comportamental. E é nesse contexto que surge uma das competências mais importantes da próxima década: desenvolver inteligência coletiva.
Num modelo de gestão do passado – e que muita gente insiste em ainda adotar –, esperava-se que o líder tivesse todas as respostas. No novo cenário, espera-se que ele construa ambientes em que as melhores respostas emergem da interação entre pessoas, dados e Inteligência Artificial. Isso exige menos centralização, controle e transmissão de conhecimento e mais capacidade de conectar diferentes conhecimentos, autonomia e aprendizagem compartilhada.
As organizações que compreenderem essa mudança sairão na frente porque conseguirão transformar tecnologia em capacidade coletiva de aprender, decidir e inovar. No fim, talvez a principal pergunta que líderes e empresas precisem responder não seja “como usar IA?”. A pergunta principal é: “Estamos formando líderes preparados para desenvolver pessoas em um mundo onde parte da inteligência da organização já não é exclusivamente humana?”
A resposta a essa pergunta pode definir quais empresas liderarão a próxima década.
Roberta Andrade é diretora-executiva da Friedman by Gouvêa Ecosystem.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo
Imagem: Envato














