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As 8 razões por que o varejo de valor domina o setor

Momentum nº 1.108

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
24 de fevereiro de 2025
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos
As 8 razões por que o varejo de valor domina o setor

O varejo de valor tem apresentado o mais forte crescimento no conjunto dos setores e o quadro parece sinalizar a continuidade dessa perspectiva para os próximos semestres no Brasil. O crescimento de participação dos atacarejos no setor de alimentação é a evidência maior por aqui. Assim como o crescimento da informalidade, que é o vetor “heterodoxo” do varejo de valor.

Mas essa expansão não é apenas na realidade brasileira, já que em muitos outros mercados o mesmo processo tem ocorrido e está relacionado a mudanças estruturais no comportamento dos empoderados omniconsumidores globais e associado a questões econômicas. Em especial pelo aumento da pressão de custos e inflação e pela expansão do acesso a diferentes alternativas pelo aumento da oferta.

No cenário global esse crescimento talvez tenha sido o maior legado da crise gerada pela pandemia, mas é fato que já era um processo em expansão antes da covid e tem a ver com consumidores colocando mais razão em suas decisões de escolha de produtos, marcas, embalagens, canais e formatos de lojas.

Tudo foi agravado pela inflação gerada durante e imediatamente pós-crise, mas que não se reduziu passado o período mais crítico. Ao contrário, os hábitos e atitudes incorporados naquele período permaneceram e foram ampliados pela percepção de sua adequação à nova realidade.

Como é sabido, toda generalização é perigosa, em especial no caso brasileiro, com as diferenças sociais, de renda, educacionais e geográficas que temos no país, e nestes temas estamos sempre considerando o que é observado para o mercado como um todo, momentaneamente isolando bolsões de afluência e comportamentos diversos.

Ainda que no cenário global tenhamos situações bem similares com algumas poucas exceções, o foco é destacar os oito fatores que determinam esse comportamento no Brasil.

1. Inflação elevada e crescente. Em especial nos alimentos

É sem dúvida o fator mais sensível, em particular para as classes mais baixas, que são a maioria absoluta da população brasileira. As classes CDE representam 75% da população e têm potencial de consumo em torno de 45% do total. Para as classes DE, as despesas com alimentação respondem por 51% do seu dispêndio total. A inflação de alimentos por conta de custos de matéria-prima, insumos de forma geral e logística tem apresentado comportamento resiliente de aumento e condiciona a atitude mais cautelosa e racional dos consumidores, direcionando para alternativas que possam oferecer mais por menos, que é a proposta básica do varejo orientado para valor.

2. Instabilidade política

Muito mais do que um problema de comunicação, o que se tem é uma situação de exaustão. O cenário no plano político tem se mostrado instável e complexo e isso é percebido de forma particular em cada segmento de mercado. Mas é generalizado.

Os artifícios do passado de tentativa de melhoria de perspectiva têm fracassado e gerado ainda maior insegurança, que rima com temperança. Ou seja, cautela, comedimento e até mesmo retração, pois não se conhece com exatidão o cenário à frente. Para os segmentos mais esclarecidos, está claro que 2025-2026 serão anos, para dizer o mínimo, complexos. Nesse viés, a componente racional tende a ser sobrevalorizada, direcionando as opções para o foco de valor.

3. Queda no índice de confiança

A combinação dos elementos acima e outros mais resulta na queda do índice de confiança, que tem tido comportamento tendente ao declínio e que é um dos elementos básicos de propulsão do consumo. Ou seja, no processo de escolha do que comprar, onde, por quanto e como pagar. Nesse conjunto de cenários, as opções orientadas para valor crescem de importância e participação de mercado.

4. Dependência de programas sociais

Criou-se no Brasil forte dependência dos diversos programas de auxílio, sendo o principal deles o Bolsa Família. São perto de 21 milhões de famílias, representando perto de um quarto da população brasileira.

Para essas famílias, criou-se um círculo vicioso de não aceitar empregos com registros trabalhistas regulares, limitando alternativas de melhoria formal da renda e o próprio desenvolvimento pessoal e profissional. Isso ainda faz crescer parcela marginalizada da população que se torna dependente dos auxílios. Esse contingente – um quarto da população – pensa e age orientada para valor de forma radical.

5. Endividamento das famílias

No período 2010 a 2013 houve forte crescimento econômico com expansão do crédito, o que facilitou o acesso das famílias a financiamentos e empréstimos com relevante aumento do endividamento.

A partir de 2014, o País enfrentou recessão econômica, com crescimento do desemprego e redução da renda das famílias e crescimento da inadimplência e endividamento.

Em junho de 2019, 64,0% das famílias brasileiras estavam endividadas e em dezembro de 2024, a proporção era de 76,7%, com leve redução em relação aos 77,6% de dezembro de 2023.

Apesar do auxílio de programas governamentais para redução do endividamento, o que se percebe são níveis que se mantêm muito altos desde 2010 e que condicionam o comportamento para foco em valor.

6. Impactos do custo e oferta de crédito

Na busca de alternativas para conter a inflação, o receituário primário é elevar as taxas de juros e limitar o crédito. E tem sido esse o caminho também usado por aqui, porém nos aproximando de um quadro perverso em que o aumento das taxas de juros realimenta a inflação, obrigando a uma escalada de aumento para tentar contê-la. Sem garantia de sucesso imediato, mas criando um efeito potencializador do problema.

Ao mesmo tempo, essa realidade reforça a opção por valor que passa a ser ainda mais demandada pela população de forma geral.

7. Aumento da oferta de alternativas físicas e digitais

O crescimento da demanda por opções de valor é o principal estímulo para o aumento da oferta de formatos, marcas, canais e modelos de negócio orientados para valor. Essa ampliação da oferta também faz crescer a participação das opções orientadas para valor de forma ampla, ainda que possa ter impacto negativo em alguns operadores. Esse é exatamente o efeito que os atacarejos têm enfrentado, pois cresceu tanto o número de lojas nesse setor que, por mais tenha crescido a demanda, diluiu a venda de operadores que estavam no setor há mais tempo.

O mesmo acontece no canal digital onde o aumento da oferta, formal ou por meio de plataformas estrangeiras, diluiu a participação de alguns operadores.

Mas é inegável que a participação consolidada mostra crescimento constante e significativo nos ambientes físico e digital e assim deverá permanecer nos próximos tempos.

8. Aumento da informalidade

O quadro mais complexo, competitivo e pressionado por consumidores mais racionais e cautelosos em seu comportamento, além do ambiente econômico e social, desembocam no aumento do nível de informalidade.

Historicamente a informalidade econômica de um segmento é espelhada pela informalidade no emprego desse setor. No Brasil, no último trimestre de 2024 a informalidade no emprego foi de perto de 39%, porém esse espelhamento perdeu sua razão de ser, pois o crescimento dos auxílios sociais e o crescimento dos MEIs, que já supera o número de 15 milhões, distorce qualquer comparativo com o dado histórico.

Mas pode ser afirmado que a informalidade econômica no setor de varejo é crescente e ela se constitui numa alternativa “heterodoxa” de expansão do varejo de valor. Tanto nas operações de agentes locais quanto naquelas geradas pelas plataformas internacionais.

O alerta é claro. A reforma tributária aprovada, que tem o inegável e necessário mérito da simplificação, terá como efeito já reconhecido o aumento da carga de impostos sobre a economia formal e fará crescer o percentual de informalidade nos setores de comércio, varejo e serviços de forma geral.

Esse conjunto de elementos com características locais tem sido determinante do aumento de participação das diversas alternativas do varejo de valor, principalmente orientado para a componente de preços mais baixos. Tudo indica, pelo descritivo de suas motivações estruturais, que assim deverá permanecer pelo menos pelos próximos dois anos.

Vale refletir.

Notas:

  • No dia 3 de abril teremos a Digitail, organizada por Gouvêa Experience com apoio de Gouvêa Consulting, em evento focado no setor de e-coomerce trazendo uma ampla e profunda discussão do momento, tendências e perspectivas desse setor no mundo e no Brasil. Conheça mais por aqui.
  • De 14 a 24 de maio, estaremos em missão técnica organizada pela Gouvêa Foodservice participando da NRA Show em Chicago, o mais importante evento global do setor, com a delegação integrada do IFB e IDV. Mais informações podem ser acessadas no site.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Shutterstock

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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