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Wine Paris 2026: um termômetro do mercado global do vinho

Um olhar sobre Mercosul-União Europeia, novas exigências dos consumidores e padrões renovados sobre sustentabilidade

Opinião de Mercado de Opinião de Mercado
25 de fevereiro de 2026
no Artigos, Artigos Mercado&Food
Tempo de leitura: 5 minutos
Wine Paris 2026: um termômetro do mercado global do vinho

Participar da Wine Paris em 2026, uma das maiores feiras do mercado de vinhos na Europa, vai além de cumprir uma agenda comercial: é a oportunidade de presenciar todo o potencial de ideias, propostas e vitalidade deste segmento.

Durante três dias, o mundo do vinho voltou a se reunir para reafirmar sua força e resiliência. Foram mais de 60 mil visitantes de 169 países e 6.537 expositores, o que representa um crescimento de 20% em relação ao ano anterior. Mas o que realmente ecoou pelos corredores e mesas de degustação foi algo mais subjetivo e poderoso: o vinho segue sendo um produto profundamente cultural, presente à mesa, nos momentos de união, de família e de celebração.

Para além das taças, a feira mergulhou em temas pragmático, com três mesas-redondas para debater os novos acordos de livre comércio entre a União Europeia e blocos como o Mercosul e a Índia, além das complexas tarifas norte-americanas.

No recorte brasileiro, o sentimento é de uma “esperança cautelosa”, em que existe uma expectativa de queda nos preços dos rótulos europeus, que deve impactar o jogo de competição com os vinhos sul-americanos. Ao mesmo tempo, o mercado entende que essa mudança não ocorrerá da noite para o dia: será um processo que exigirá tempo, negociação e adaptação nos próximos anos.

Vinhos mais frescos e com mais identidade

Em termos de tendências globais, o evento deixa claro que estamos caminhando para um mundo de vinhos mais frescos, mais elegantes e com menor intervenção da madeira. Cada vez mais aparecem vinhos de terroir que contam uma história, representam uma região, uma cultura e uma origem, e menos vinhos construídos a partir da potência ou da concentração extrema.

Longe de ser um movimento de renúncia à complexidade, é uma busca por equilíbrio. O consumidor, e também a gastronomia, pede hoje vinhos mais fluidos, mais fáceis de beber, que acompanhem melhor a experiência à mesa e se integrem naturalmente à comida.

Entre técnicas ancestrais e a inovação

A inovação no setor nem sempre significa romper com o passado, mas pode representar o seu resgate com maior precisão científica. Na Wine Paris 2026, ficou evidente o movimento de retorno a práticas ancestrais, agora reinterpretadas à luz da enologia moderna. O uso do concreto, material que dominou as adegas europeias antes da ascensão do aço inox, volta com força total, tanto na fermentação quanto na maturação.

Diferente do aço, que é totalmente impermeável, ou da madeira, que transfere sabores de tostado e baunilha, o cimento oferece o “caminho do meio”. Sua porosidade natural permite uma micro-oxigenação constante, semelhante à da barrica, porém de forma neutra. O resultado são vinhos com maior volume de boca e textura sedosa, que preservam a pureza da fruta e a identidade varietal, sem a interferência dos aromas terciários da madeira.

A madeira, evidentemente, não desaparece. O que muda é a forma de utilizá-la: cresce o uso de grandes formatos, como foudres, tinas e barricas de maior volume, nos quais a madeira contribui com equilíbrio e complexidade, sem dominar o vinho.

Também se observa uma menor resistência à mínima intervenção. Vinhos com uso reduzido ou até sem adição de sulfitos começam a surgir com mais naturalidade em diversas regiões, não como uma moda extrema, mas como mais uma opção dentro do portfólio das vinícolas.

Vinhos gastronômicos 

A gastronomia tem hoje uma relação mais forte do que nunca com o vinho, pois se antes o vinho era visto como um alimento em si, hoje ele é claramente um complemento da experiência gastronômica. À medida que mudam os hábitos de consumo e os estilos de cozinha, o vinho acompanha essa evolução.

Isso explica o deslocamento de vinhos tintos muito estruturados, encorpados e potentes para estilos mais frescos, mais agradáveis e fáceis de beber. A interação entre comida e vinho passou a priorizar frescor, equilíbrio e integração, mais do que força ou intensidade.

Nesse contexto, observamos o aumento da importância dos vinhos brancos, rosados e espumantes. São bebidas mais versáteis, mais descontraídas e mais fáceis de harmonizar, adaptando-se melhor aos novos momentos de consumo e a ocasiões mais cotidianas.

Um dos avanços mais evidentes está nos vinhos brancos. Variedades historicamente associadas à Europa, como Riesling, Gewürztraminer e Albariño, hoje apresentam resultados consistentes no Novo Mundo. Essas plantações não são recentes, mas agora começam a mostrar maturidade e qualidade de forma mais clara.

Também é visível uma diversificação maior dos portfólios: cada vez menos vinícolas focadas exclusivamente em tintos e mais produtores ampliando sua oferta de brancos e rosados, inclusive rosados de maior qualidade, algo pouco comum até alguns anos atrás.

Nos tintos, variedades como Cabernet Franc ganham destaque, ao lado de uvas como Garnacha e Cariñena, que contribuem com frescor, perfil aromático e um estilo mais acessível, alinhado às novas demandas do mercado.

Sustentabilidade deve ir além do orgânico

Outro sinal claro é o enfraquecimento do vinho orgânico como diferencial de marketing, que deixou de ser uma tendência em si. Muitas vinícolas entenderam que o consumidor, especialmente o mais jovem, busca algo mais amplo: sustentabilidade real, compromisso ambiental, social e econômico. O foco já não está apenas na certificação, mas no impacto. Esse é hoje o verdadeiro caminho para se conectar com as novas gerações.

As mudanças climáticas atravessam todas as conversas: safras irregulares, estresse hídrico, chuvas inesperadas e longos períodos de seca vêm afetando regiões tradicionalmente estáveis.

Os produtores vivenciam transformações reais, gerando grandes impactos regionais. No Chile, principal exportador de vinhos para o Brasil, observamos uma queda nos níveis freáticos e um clima cada vez mais extremo no norte do país, impulsionando o deslocamento de vinhedos para regiões mais ao sul. Na Espanha e em grande parte da Europa, ocorre algo semelhante: áreas mediterrâneas históricas enfrentam maior imprevisibilidade, enquanto novas zonas, mais ao norte ou em maior altitude, começam a se consolidar como alternativas viáveis.

A preocupação é generalizada, e o setor já não está apenas estudando o problema: está implementando e criando soluções.

A Wine Paris 2026 deixou a mensagem clara de que o setor não está em retração, mas em plena fase de transformação. O que emerge desse cenário é um vinho com mais identidade e frescor, desenhado para uma gastronomia vibrante e em sintonia com o contexto climático e social de nossa época.

Este é o retrato de uma indústria que se permite evoluir tecnicamente sem abrir mão de sua profunda raiz cultural. Em um mundo cada vez mais acelerado e impessoal, percebo que o vinho sabe se reinventar para proteger sua essência, e isto é uma excelente notícia.

Germán Garfinkel é vice-presidente corporativo do Grupo Wine.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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