O mercado global de luxo passa por uma das transformações mais profundas de sua história recente. O setor, que historicamente se apoiava em pilares rígidos de herança, exclusividade linear e ostentação visual, enfrenta uma reconfiguração estrutural em suas bases de consumo. O comportamento do consumidor de luxo mudou: ele está mais seletivo, crítico em relação ao valor real das marcas e profundamente direcionado para o campo intangível das experiências e do bem-estar pessoal.
Dados consolidados do relatório anual da Bain & Company e da Altagamma revelam que, após anos de volatilidade e reajustes agressivos de preços no pós-pandemia, o mercado de bens de luxo pessoais (vestuário, marroquinaria, calçados e alta joalheria) enfrentou uma contração em sua base de clientes, perdendo cerca de 70 milhões de consumidores ativos entre 2022 e 2025.
Esse êxodo não representa o fim do desejo pelo luxo, mas sim uma rejeição ao modelo de “ostentação vazia” e aos aumentos de preços que não vieram acompanhados de uma evolução criativa ou de qualidade proporcional. O consumidor contemporâneo de alto padrão não compra mais apenas para demonstrar status social; ele busca o que os analistas chamam de “luxo existencial”.
Para compreender a fundo as tendências atuais, é preciso mapear o perfil sociocomportamental desse novo comprador. O mercado de alto padrão hoje divide-se claramente entre dois grandes blocos de consumidores, cujas motivações diferem substancialmente: os compradores ultrarricos (very important clients, os VICs) e os consumidores aspiracionais.
Durante a última década, o crescimento do mercado de luxo foi amplamente impulsionado pela classe média alta e por ovens profissionais que compravam itens de entrada, como cintos, carteiras, calçados e fragrâncias, para sinalizar ascensão social. No entanto, a inflação global e os reajustes excessivos praticados pelas grandes casas de luxo afastaram esse público.
O consumidor aspiracional não desapareceu, mas mudou de estratégia. Ele migrou para marcas mais acessíveis ou canais de desconto em categorias menos visíveis para conseguir investir em momentos pontuais de indulgência, como uma viagem de alto padrão ou uma joia atemporal. Ele também passou a adquirir bens no mercado de segunda mão, buscando peças vintage ou seminovas que entreguem o valor da marca sem o prêmio inflacionado das lojas que vendem as coleções atuais.
Com a retração da base aspiracional, as marcas de luxo voltaram seus canhões estratégicos para os VICs — os clientes de altíssimo patrimônio líquido (ultra high net worth individuals, os UHNWIs). Esse grupo, responsável por uma fatia desproporcional do faturamento das marcas, tornou-se ainda mais exigente.
Para esses indivíduos, o produto de prateleira não tem desejo. Eles demandam o luxo sob medida: produtos customizados e experiências exclusivas que o dinheiro comum não consegue comprar, como jantares privados em ateliês históricos, acesso a pré-vendas secretas e serviços de atendimento que antecipam suas necessidades com base em dados de Inteligência Artificial.
Para acrescentar, as marcas têm de aprender a trabalhar as diversas gerações. De acordo com projeções da McKinsey e da Altagamma, os millennials e a geração Z serão responsáveis por cerca de 75% do consumo global de luxo até 2030. Esse dado impõe um choque de realidade cultural nas marcas tradicionais.
Nascidos entre 1981 e 1996, os millennials serão os grandes motores da transição do produto para a experiência. Eles valorizam a curadoria, o design com propósito e as marcas que facilitam suas jornadas cotidianas por meio de ecossistemas digitais fluidos.
A geração Z, nascida entre 1997 e 2010, apresenta uma relação radicalmente diferente com a fidelidade à marca. Eles possuem identidades fluidas e não se encaixam em segmentações tradicionais — o mesmo jovem pode usar um tênis de corrida tecnológico, ouvir gêneros musicais populares locais e carregar uma bolsa de alta costura. Já a Gen Z exige transparência ética radical, engajamento cultural real e prefere marcas que usem uma linguagem visual lúdica, autêntica e conectada ao universo digital.
Uma das mudanças comportamentais mais visíveis na moda e no estilo de vida de alto padrão nos últimos anos foi o quiet luxury (luxo silencioso). Lembro-me que esse foi o tema de um dos meus primeiros artigos.
A evolução do mercado de alto padrão desenha uma
A evolução do mercado de alto padrão desenha uma clara transição cultural, na qual o modelo do luxo tradicional e da ostentação cede espaço definitivo para a filosofia do quiet luxury, ou luxo silencioso. Nessa mudança de paradigma, a antiga preferência por logos massivos e visíveis, que serviam como uma sinalização pública e imediata de status social, é substituída pela ausência quase total de logotipos aparentes.
Essa nova dinâmica introduz uma espécie de sinalização interna e velada, em que o reconhecimento do valor da peça ocorre apenas entre pares. Ou seja, entre indivíduos que compartilham o mesmo repertório estético e cultural. Além disso, o setor se afasta dos processos de produção industrial em escala, típicos da massificação do luxo, para reconectar-se com a sua essência mais pura: o foco absoluto na herança têxtil, no artesanato meticuloso e no uso de matérias-primas raras e de qualidade incomparável.
Marcas que historicamente operavam nesse nicho discreto viram sua relevância explodir, enquanto as focadas em monogramas pesados precisaram correr para criar linhas essenciais e atemporais. O luxo silencioso caminha lado a lado com o conceito de durabilidade. O consumidor prefere pagar significativamente mais por um item que durará décadas a fio do que investir em coleções sazonais que se tornam obsoletas em seis meses.
O mercado de alto padrão está operando em um ambiente de recalibração global. Com base no comportamento observado nas principais capitais financeiras, as marcas líderes estão adotando novas diretrizes estratégicas.
A busca por experiências superou definitivamente a aquisição de bens materiais. Mais de 70% dos consumidores do mercado de luxo afirmam priorizar o “viver” em detrimento do “possuir”. Esse comportamento impulsionou um crescimento histórico nos setores de:
- Hospitalidade e viagens ultrapremium: resorts focados em desconexão intencional, roteiros personalizados para destinos exóticos e isolados e serviços de aviação privada.
- Gastronomia de alta linha: jantares imersivos, menus assinados por chefs premiados que valorizam ingredientes locais e sustentáveis e experiências enogastronômicas exclusivas.
- Wellness e longevidade: clínicas de revitalização, biohacking, retiros de saúde mental e produtos voltados ao equilíbrio físico e energético transformaram-se nos novos símbolos máximos de status. O maior luxo da atualidade é o tempo e a saúde.
Marcas de moda tradicionais perceberam esse movimento e estão expandindo seus portfólios para além das passarelas. Tornou-se comum ver grandes grifes inaugurando seus próprios cafés, restaurantes, hotéis boutique e spas de alto padrão em pontos estratégicos globais, criando ecossistemas de estilo de vida completos.
A responsabilidade socioambiental deixou de ser um mero selo de relações públicas nas corporações de luxo para se transformar em um critério eliminatório de compra. O consumidor moderno quer rastreabilidade total, saber de onde vêm as matérias-primas, se a cadeia de suprimentos respeita os direitos trabalhistas e quais são os impactos ambientais daquela produção.
Diante disso, o mercado de segunda mão de artigos de luxo consolidou-se como um pilar legítimo da indústria. O preconceito contra o produto usado desapareceu, substituído pela valorização do design vintage e pelo desejo de reduzir a pegada ecológica. Grandes marcas começaram a criar suas próprias plataformas de recompra e restauração, oferecendo garantia de autenticidade para peças antigas de seus clientes e reforçando a mensagem de durabilidade eterna de seus produtos.
O avanço tecnológico trouxe ferramentas que potencializam, em vez de substituir, o toque humano essencial ao luxo. A Inteligência Artificial está sendo utilizada nos bastidores para mapear comportamentos, prever tendências de estoque e fornecer aos consultores de vendas relatórios detalhados sobre as preferências históricas de cada cliente.
Na ponta do consumidor, plataformas imersivas de realidade aumentada permitem a experimentação virtual de joias e alta costura com extrema precisão, enquanto sistemas de atendimento digital via concierges integrados garantem uma jornada de compra sem fricção, permitindo que o cliente transite organicamente entre o e-commerce e a boutique física.
A distribuição geográfica do consumo de luxo também redesenha suas fronteiras. A China, que por quase duas décadas atuou como o motor de crescimento hiperacelerado do setor, entrou em um ritmo de consumo mais maduro e contido, focado na valorização de marcas locais e no orgulho cultural nacional.
Enquanto os mercados maduros, como a Europa, enfrentam oscilações causadas pela normalização do turismo e pelas flutuações cambiais, novas potências regionais começam a ganhar relevância expressiva no faturamento global, mas esse assunto deixarei para o meu próximo artigo.
A indústria do luxo está diante de uma encruzilhada de calibração. O velho paradigma de criar escassez artificial por meio de preços puramente proibitivos não é mais suficiente para garantir a longevidade das marcas. O consumidor atual, munido de informação digital instantânea e opções ilimitadas, exige consistência entre a etiqueta de preço e a entrega artística, material e experiencial.
Para prosperar neste novo cenário, as marcas precisam resgatar a essência histórica do verdadeiro luxo: a busca incessante pela excelência, o respeito ao artesanato e à herança cultural, e a habilidade única de criar conexões emocionais profundas e duradouras com seus clientes. Aquelas que conseguirem equilibrar a sofisticação da tradição com a agilidade da inovação tecnológica e o compromisso ético não apenas sobreviverão à transformação atual, mas ditarão os rumos do mercado pelas próximas décadas.
Sandra Hayashida é fundadora da LPE Experiências.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Arquivo pessoal














