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Acessibilidade para inovação ou inovação para acessibilidade?

Como a inclusão das pessoas com deficiência pode impactar positivamente toda a sociedade?

Cid Torquato de Cid Torquato
26 de janeiro de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 8 minutos
Acessibilidade para inovação ou inovação para acessibilidade?

Repensar a importância estratégica da acessibilidade é um dos grandes desafios dos tempos contemporâneos, cada vez mais diversos e inclusivos. Muito além de ser uma obrigação legal ou um conjunto de adaptações pontuais, a acessibilidade precisa ser compreendida como um potencial motor de inovação, capaz de transformar pessoas, negócios, políticas e, por tabela, a sociedade como um todo.

No atual contexto civilizatório, de valorização da diversidade humana, muito mais do que uma mera suposição teórica, a acessibilidade, que é  multidimensional (e multisensorial), tem que ser tratada como infraestrutural, como base obrigatória e necessária para garantir a todos, sem exceções, acesso, uso, segurança e conforto.  Ao transcender seu papel-chave no universo da deficiência, a acessibilidade serve e beneficia a todos, erga hominis, deixando de ser apenas uma obrigação para também se tornar um vertor de inovação: abandona o assistencialismo e passa a oferecer um conjunto de dinâmicas que vão moldar imagem, postura e propósito.

Tendo essas visões e proposições em mente, compartilho estas reflexões sobre a relação intrínseca entre acessibilidade, protagonismo das pessoas com deficiência e desenvolvimento social e econômico como um todo. Minha trajetória como executivo, empreendedor bissexto e gestor público tarimbado me habilita, como observador privilegiado e partícipe do ecossistema da inclusão, a provocar essa saudável discussão nesta coletânea de amigos e artigos.

Como tetraplégico, nível C5, vivo as questões cotidianas enfrentadas pelas pessoas com deficiência, potencializadas por meu engajamento e trabalho junto ao ICOM (plataforma líder na intermediação e comunicação em Libras por videochamada), ao curso de Gestão Inclusiva e Protagonismo das Pessoas com Deficiência, da ESPM, e a outros projetos de vanguarda, pretéritos e presentes. É dessa vivência concreta que nasce a certeza com que vislumbro a acessibilidade como motor da inovação em geral, não apenas inovação para acessibilidade.

Há cerca de 15 anos, ao assisitir a uma palestra do saudoso professor Romeu Sassaki, principal pensador sobre deficiência que o Brasil já teve, aprendi que acessibilidade, antes de tudo, é um conceito multidimensional. Segundo Sassaki, são sete as dimensões da acessibilidade, e “é preciso entender todas elas para construir um mundo inclusivo”. Essa frase me marcou e tem pautado minha percepção de mundo e minha atuação profissional desde então.

À época, eu trabalhava como secretário-adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, onde pude colocar em prática parte desses ensinamentos. Mais tarde, já como secretário municipal da Pessoa com Deficiência, na gestão Doria-Covas, todos os nossos projetos contemplaram essa visão multidimensional, sempre mirando a utopia do desenho universal e a possibilidade prática de realmente construirmos um mundo melhor para todos.

Com descrições informais, espero didáticas, de minha autoria, as Sete Dimensões da Acessibilidade são:

  • Acessibilidade atitudinal: Imagine estar em um ambiente em que as pessoas olham para você com curiosidade ou até com certo receio por você usar uma cadeira de rodas ou ter alguma deficiência. A empatia começa aí: em como enxergamos o outro, sem julgamentos nem estigmas. Todos somos diversos, e é isso que torna a vida interessante. A verdadeira inclusão começa com essa mudança de mentalidade.
  • Acessibilidade arquitetônica: Não adianta nada um lugar oferecer um ótimo serviço se for inacessível. Já passei por situações em que eu, pessoa com deficiência e cadeirante, me vi obrigado a pedir ajuda para transpor degraus ou acessar um palco. Quantas vezes precisei dar meia-volta e ir embora, simplesmente porque não havia acessibilidade. Rampas, elevadores, piso tatil, banheiros adaptados são recursos que garantem que o ambiente seja, de fato, acessível a todos.
  • Acessibilidade metodológica: Quando falamos de educação, a acessibilidade não se limita ao prédio da escola. Ela deve ser considerada também nas metodologias de ensino. Já pensou como seria incrível se as técnicas de ensino fossem pensadas para atender a cada estudante, contemplando suas características e necessidades específicas? É a isso que chamamos de acessibilidade metodológica.
  • Acessibilidade natural: A natureza é maravilhosa, mas, muitas vezes, impõe barreiras às pessoas com deficiência. Pense em uma trilha em meio a uma floresta. Como uma pessoa com mobilidade reduzida, por exemplo, pode aproveitar esse passeio? Ou em uma calçada toda quebrada pelas raízes de uma árvore. Como adaptar esses espaços para conciliar acessibilidade e ecologia?
  • Acessibilidade digital e comunicacional: Em um mundo cada vez mais tecnológico, a acessibilidade nas plataformas digitais tornou-se uma questão fundamental. Quando um site não é acessível, ele exclui muita gente. Hoje, francamente, não há mais nenhuma desculpa técnica, jurídica ou moral que justifique a falta de acessibilidade digital de forma generalizada. Batalhemos por isso.
  • Acessibilidade programática: As políticas públicas precisam garantir que as pessoas com deficiência possam usufruir de seus direitos. Isso vale também para as políticas e estratégias das empresas, que devem fazer o seu papel no reconhecimento, na valorização e na promoção da diversidade humana É a esse conjunto de recomendações e valores de natureza programática que se refere esta dimensão.
  • Acessibilidade instrumental: As tecnologias assistivas, também conhecidas como ajudas técnicas, abrangem recursos que vão de bengalas, cadeiras de rodas e próteses a softwares de leitura de tela, aparelhos de audição a dispositivos, com papel crucial para minimizar eventuais limitações e maximizar habilidades das pessoas com deficiência, sempre promovendo independência e autonomia.

Ao longo da história, há um sem-número de equipamentos, serviços e conceitos que foram inventados para servir ao grande público, mas que também se tornaram excelentes recursos assistivos e inclusivos. Contudo, ainda mais marcantes são as criações para atender demandas específicas de pessoas com deficiência, mas que facilitam, na prática, a acessibilidade, a assistividade e a usabilidade de todos.

O impacto dessa inovação cross-border é tão interessante e inusitado que, nos Estados Unidos, ganhou o nome de “efeito meio-fio” (ou courb cut effect), em referência à ampla aceitação e adesão às rampas nas calçadas e ao rebaixamento de guias nas esquinas, que começaram a surgir na Universidade da Califórnia, em Berkeley, no inicio dos anos 1970, pensadas, inicialmente, apenas para cadeirantes. Nesta mesma categoria, temos, por exemplo, o vidro elétrico nos carros, a máquina de escrever, os audiobooks, as mensagens instantâneas, os canudos flexíveis, a escova de dentes elétrica e muitos outros produtos e serviços que, hoje, parecem óbvios, mas que, na prática, demonstram como acessibilidade pode ser um grande vetor de inovação.

Embora ainda pouco conhecida e subestimada, tratada como algo periférico, supérfluo ou meramente ocupacional, operacional, a presença da acessibilidade ou sua ausência pode determinar a inclusão ou a exclusão de muita gente. No mundo, cerca de 1,2 bilhão de seres humanos possuem algum tipo de deficiência. No Brasil, segundo dados incompletos do IBGE, somos cerca de 18,6 milhões — na verdade, devemos estar mais na casa dos 30 milhões, mas essa já é outra história, para um outro artigo. Ignorar esses números e restringir a plena participação desse enorme contingente significa excluir pessoas, histórias, talentos, consumidores e ideias, um contrassenso em qualquer ambiente que se pretenda inovador e minimamente sustentável.

Quando atuei como secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, entre 2017 e 2020, planejamos e realizamos ações exatamente nessa direção, valorizando a diversidade dos colaboradores e oferecendo aos munícipes infraestruturas e superestruturas acessíveis, para facilitar sua participação crescente em todas as iniciativas públicas.

Talvez os dados mais marcantes sobre nossas políticas inclusivas sejam os números do próprio quadro funcional: 35% dos colaboradores, estagiários e profissionais, tinham alguma deficiência – fala-se, em geral, em no máximo 5% – cerca de 60% de mulheres, 40% de pretos e pardos e 20% de LGBTQIA+, habitantes de mais de 35 bairros e regiões nobres e periféricas da cidade. Diversidade no DNA.

Defendo que esses conceitos precisam ser programados como pilares da transformação digital por indivíduos, governos, empresas e organizações, alçados a um outro e inédito patamar estratégico, e incorporados by design, desde a gênese de qualquer projeto. É um erro cada vez mais flagrante tratar acessibilidade como um adendo técnico ou como uma camada acessibilizante a ser aplicada ao final do processo.

Minha proposta é para que a acessibilidade passe a ser usada como um filtro permanente, incorporada como uma nova ótica que perpassa tudo o que fazemos, da concepção e do desenvolvimento, passando pela implementação epelo  uso, até a avaliação e o planejamentos futuros, em moto contínuo, gerando um ciclo virtuoso cada vez mais acessível e inclusivo. Acessibilidade como processo e metodologia.

Quando a acessibilidade se torna estrutural, passa a também ser estruturante. Pessoas antes excluídas começam a poder participar, circular, consumir, produzir, pagar impostos e, sobretudo, contribuir com suas visões particulares e potencialmente diferenciadas. É exatamente nesse ponto que a inovação acontece. Diversidade não é retórica: é combustível criativo para endereçar os desafios contemporâneos de forma verdadeiramente holística, com todos participando (tudo sobre nós, sempre, com todos nós).

Se as obrigações legais e éticas já não fossem suficientes, estudos recentes de Harvard e McKinsey não deixam dúvidas quanto ao impacto positivo e crescente poder transformador das ações afirmativas em prol da diversidade nas empresas “Diversity wins!”  é o grito de guerra desta tendência. Acessibilidade gera mais business.

O horizonte filosófico desse processo é o desenho universal, que propõe ambientes, produtos e serviços pensados para, em termos filosóficos, “todo mundo junto e misturado” ou, de forma mais realista, o maior número possível de pessoas, sem necessidade de grandes adaptações posteriores. Trata-se de uma abordagem alinhada aos direitos humanos, de natureza humanista e idealista, uma aspiração bela e potente, que estimula reflexão, emoção, capacitação, inovação, inclusão e a contribuição contínua para um futuro com cada vez mais acessível.

Foi com o objetivo de servir como um hub e incentivar esses exercícios acessibilizantes que criamos, em março de 2025, o NIA-InovaUSP, ou mais precisamente o Núcleo de Inovação em Acessibilidade do Centro de Pesquisa e Inovação, na Universidade de São Paulo, coordenado pela professora Roseli Lopes e pelo professor Arturo Forner, ambos da Poli-USP, e por mim, idealizador da iniciativa.

A ideia é colocar em prática todas estas teorias inclusivas, hospedando projetos multidisciplinares e intersetoriais, com parceiros da própria universidade e organizações externas igualmente engajadas. Não se trata apenas de um jogo de palavras e conceitos da moda ou politicamente corretos, mas de estruturar inovação para acessibilidade e, de forma estruturante, acessibilidade para inovação.

O primeiro passo é garantir participação plena das pessoas com deficiência e de outros grupos minorizados e, como consequência, outros avanços para toda a sociedade, a partir do conhecimento e óticas inovadoras. Quanto mais gente engajada, melhor.

Este texto é, portanto, um chamamento para compreendermos, de uma vez por todas, que acessibilidade não é opcional, que não depende de aviso prévio e que não deve ser vista como despesa indesejada. Ainda mais agora, com as promessas da Inteligência Artificial, tem que ser contemplada como investimento estratégico, muitas vezes invisível, mas necessário, nas mais variadas atividades da vida cotidiana.

Ou seja, a equação vencedora acessibilidade + usabilidade + diversidade x inovação = sustentabilidade, que é, no fim das contas, nossa grande meta final.

Cid Torquato é embaixador do ICOM. 
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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Cid Torquato

Cid Torquato

Cid Torquato é advogado. Foi secretário municipal da Pessoa com Deficiência e secretário adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Atua como coordenador do Núcleo de Inovação em Acessibilidade do Inova-USP e embaixador do Prêmio WSA Brasil.

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