O mercado brasileiro de alimentos deve movimentar US$ 198,03 bilhões em 2025, segundo projeções do Guia do Mercado de Alimentos para 2025, do Sebrae. Esse crescimento é positivo, mas traz uma responsabilidade que o setor ainda reluta em encarar com a seriedade necessária: a de garantir transparência, segurança sanitária e rastreabilidade em cadeias cada vez mais complexas. O agro brasileiro só seguirá competitivo se tratar a rastreabilidade digital como uma decisão estratégica e não como um custo operacional.
Hoje, da produção agrícola ao varejo, grande parte da cadeia de alimentos ainda opera com sistemas fragmentados, controles manuais e bases de dados pouco integradas. Tenho visto, na prática, empresas altamente eficientes no campo, mas incapazes de responder com rapidez quando algo foge do esperado. Em situações críticas, identificar a origem do problema pode levar dias ou semanas, um atraso que se traduz em desperdício, custos logísticos elevados, riscos à saúde pública e danos reputacionais difíceis de reverter.
Ao mesmo tempo, a pressão por transparência não vem apenas do consumidor final. Grandes redes varejistas, importadores e órgãos reguladores já exigem informações claras sobre procedência, certificações, práticas ambientais e condições sanitárias. No mercado internacional, a rastreabilidade digital deixou de ser diferencial e passou a ser pré-requisito para acesso a determinados mercados. Ignorar esse movimento significa aceitar, conscientemente, perder competitividade.
É nesse cenário que tecnologias como blockchain e Inteligência Artificial (IA) deixam de ser discurso futurista e se tornam infraestrutura básica. O registro inviolável de cada etapa da produção, do transporte e da distribuição permite rastrear produtos e lotes quase em tempo real. A IA, por sua vez, ajuda a identificar padrões, detectar anomalias e antecipar riscos operacionais e sanitários, antes que eles se tornem crise.
Nos últimos anos, plataformas tecnológicas voltadas à integração de dados ao longo de toda a cadeia produtiva têm ganhado espaço no setor agroalimentar. Essas soluções permitem digitalizar processos de rastreabilidade e conectar informações desde a origem no campo até o consumidor final, reunindo dados sobre procedência, certificações, logística e conformidade regulatória em históricos auditáveis e confiáveis.
A rastreabilidade digital deixou de ser apenas um diferencial competitivo e passou a ser um requisito básico para operar. É o mínimo esperado de um setor que movimenta bilhões, alimenta o País e disputa espaço no mercado global. Quem ainda discute se deve investir em rastreabilidade já está atrasado. O debate agora é quem vai liderar essa transformação e quem vai correr atrás para não ficar para trás.
Rafael Mandia é COO da Blockforce.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato















