Por que a identidade digital virou a infraestrutura crítica mais importante da atualidade

Durante décadas, a sociedade construiu seus sistemas de confiança a partir de um princípio simples: ver alguém significava reconhecer sua presença e legitimidade. Na era da Inteligência Artificial e das deepfakes, essa lógica deixou de ser suficiente.

A digitalização acelerada dos últimos anos ajudou a consolidar essa transformação. Documentos e registros antes restritos ao formato físico começaram a ganhar versões digitais oficiais: carteira de trabalho, registros de veículos, certificados de vacinação e títulos de eleitor são alguns exemplos. Com a consolidação de plataformas como o Gov.br, esse movimento avançou para um modelo mais centralizado de acesso, no qual diferentes certificações e serviços passaram a coexistir em uma mesma interface, apoiada por mecanismos de autenticação.

Entretanto, essa mesma equação criou um ponto de vulnerabilidade. Quando a relação entre empresas e consumidores passou a acontecer majoritariamente por telas, a identidade verificada assumiu o papel de camada crítica da economia digital. Sem essa premissa, empresas perdem receita, consumidores legítimos são barrados, fraudadores encontram brechas e a confiança nos serviços digitais se fragiliza.

A Deloitte estima que fraudes sofisticadas, habilitadas por IA generativa, podem custar ao sistema financeiro americano US$ 40 bilhões até 2027, ante US$ 12,3 bilhões em 2023. No Brasil, o levantamento Unico Intelligence Report 2025 – Anatomia dos Pagamentos Negados, realizado pela Unico, rede líder em verificação de identidade na América Latina, em parceria com a Opinion Box, estima perdas anuais entre R$ 120 bilhões e R$ 150 bilhões associadas a falhas na verificação de identidade, incluindo transações que deixam de acontecer mesmo quando o cliente tem limite, intenção de compra ou elegibilidade para seguir adiante.

Tais números evidenciam que a fraude, mais do que um problema associado à segurança, é uma vulnerabilidade em termos de eficiência econômica. Uma verificação fraca permite a entrada de fraudadores; enquanto uma verificação excessivamente rígida bloqueia bons usuários. Em ambos os casos, há perda financeira, operacional e reputacional.

O impacto das deepfakes vai além da fraude financeira. Pela primeira vez, a percepção humana deixa de ser suficiente para validar presença, autenticidade e intenção no ambiente digital. Se antes a imagem funcionava como evidência, agora ela própria passou a exigir validação.

Em 2024, um caso em Hong Kong ganhou repercussão internacional após um funcionário transferir US$ 25 milhões a fraudadores ao participar de uma videoconferência com representações sintéticas de executivos da própria empresa. No Brasil, esse debate acontece em função da maturidade digital do mercado. O País avançou rapidamente em pagamentos instantâneos, como o Pix e suas modalidades, contas digitais, crédito online, e-commerce, benefícios e serviços financeiros. Essa alavanca gerou inclusão, mas também aumentou a superfície de ataque.

A Unico destaca projeções de aumento nos ataques de fraudes sofisticadas em 2026. O cenário mais conservador prevê um crescimento de 150% no ano. Já no horizonte de maior disseminação de ferramentas de Inteligência Artificial o salto pode ser de 550%, com a réplica de rostos, vozes e comportamentos com alto grau de precisão.

A projeção de crescimento ocorre em cima de uma base de número de casos que já vem em rápida expansão. Em 2025, a empresa registrou aumento de 1.082% nas tentativas de fraudes digitais, comparado ao ano anterior.

Nesse sentido, o ponto central de proteção está em validar a origem da interação no momento em que ela acontece, por meio do que conhecemos como liveness (prova de vida). Isso significa combinar diferentes sinais (presença, comportamento, temperatura corporal, dispositivo e contexto transacional) para formar uma avaliação de risco. Na prática, a lógica deixa de depender de uma única evidência, como a foto de um documento ou a imagem de um rosto, e passa a analisar múltiplos aspectos simultaneamente.

O sistema avalia se existe um humano real por trás da interação, se aquela pessoa corresponde à identidade declarada, se o dispositivo apresenta comportamento suspeito e se o contexto daquela ação é compatível com o histórico do usuário. Em vez de uma verificação pontual, a identidade passa a ser validada por uma arquitetura contínua de confiança.

Essa evolução exige um modelo multifatorial, adaptativo e redundante. Multifatorial porque a identidade não pode depender de um único sinal. Adaptativo porque o risco muda conforme o tipo de transação, o dispositivo e o comportamento. Redundante porque os fraudadores testam continuamente novas formas de ataque; quando uma defesa é contornada, outras camadas precisam continuar operando normalmente.

Em um cenário em que os fraudadores se utilizam do que há de mais sofisticado no mercado digital para simular presença, o desafio é construir confiança de forma invisível para o bom usuário e implacável contra a fraude. Nos próximos anos, a tendência é que a IA reduza ainda mais a barreira de entrada para ataques sofisticados. Assim, validar a existência de um humano legítimo por trás de uma interação torna-se, mais do que um diferencial tecnológico, a condição básica para sustentar a economia digital.

Davi Reis é vice-presidente de Estratégia Global na Unico.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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