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Pode estar no final mais um ciclo de exuberância do varejo norte-americano?

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
7 de janeiro de 2019
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 4 minutos

Começo do ano é tempo de balanço e previsões. E sempre é importante olhar o que acontece no consumo dos Estados Unidos, ainda o maior mercado varejista mundial, porém cada vez mais desafiado pelo crescimento da China.

O atual ciclo de expansão do consumo e do varejo nos Estados Unidos começou no início desta década, após a recessão que marcou o período 2007-2010, e que se alastrou para muitas outras economias.

No período, o desemprego por lá caiu de 9,6% em 2010 para 4,4% estimados para 2018, número que se aproxima do chamado desemprego estrutural.

A expansão da economia norte americana, medida pelo crescimento do PIB no ano passado deverá ficar próxima a 3%, com significativa ampliação sobre o ano anterior quando esteve próxima a 2%.

O desempenho é muito significativo para uma economia madura como a norte-americana, que deverá alcançar um PIB de US$ 19,8 trilhões em 2018, mas é importante lembrar que em mercados como China e Índia esses indicadores de crescimento deverão ser mais do que o dobro do que o que se observa nos Estados Unidos.

No mercado norte-americano os setores de varejo foram fortemente influenciados pela recuperação e crescimento do consumo e a expansão dos diversos canais e formatos de varejo é o melhor sinalizador dessa evolução, especialmente nos últimos anos.

O varejo como um todo por lá, excluindo foodservice, cresceu 3,4% na média aritmética no período de 2010-2017 e a estimativa é que tenha crescido exuberantes 5,8% em 2018, segundo os dados do Bureau de Censo daquele país.

Isso não impediu que um número sem precedentes de lojas fossem fechadas e uma significativa redução de espaço no varejo ocorresse nos últimos anos, pelo crescimento do varejo “não loja”, especialmente pelo e-commerce.

Com isso esse crescimento tem comportamentos setoriais distintos nas diversas categorias.

A maior expansão é sem dúvida, exatamente do varejo não loja, que é puxado pelo canal de vendas pela internet, o mais exuberante de todos, e mais outros canais de vendas diretas que, na média 2010-2017 teve expansão de 8,91 e a previsão para 2018 é 10,2%, repetindo crescimento superior a 10% dos últimos quatro anos.

Para o canal lojas o maior crescimento em 2018 deverá ser para o setor de moda e acessórios, com expansão prevista superior a 4,6%, depois de ter uma expansão média de 3,0% entre 2011-2017.

Outro setor com forte crescimento em 2018 é farmácias e drugstores com expansão superior a 4% em 2018, tendo crescido 3,21% no período 2010-2017. Junto com o de lojas de produtos para saúde e cuidados pessoais que deverá crescer 3,9% em 2018, tendo a média anterior sido de 3,60%.

Fica comprovado o quanto a combinação de medicamentos, saúde, bem estar e cuidados pessoais têm, sistematicamente, apresentado consistente crescimento estrutural acima da média do setor por conta do envelhecimento da população e da maior preocupação e atenção com esses temas.

As lojas de material para construção e acabamento também acompanharam a expansão recente do setor imobiliário nos EUA e deverão ter crescimento de quase 4% em 2018, seguido de perto pelas lojas de móveis e artigos para o lar com crescimento de 3,9 %.

Outro segmento que teve comportamento coerente com os novos hábitos da população com forte crescimento no ano passado foi o das lojas do tipo clubes de atacado, como Costco, quase equivalentes ao nossos Atacarejos, junto com os Supercenters, que apresentaram expansão superior a 3,8%, quando a média do período de 2011-2017 foi de 3,34%, confirmando a tendencia de maior expansão do varejo de valor em parte representado por esses formatos de lojas.

As lojas de departamentos de descontos como Target, K Mart e outras, perderam mercado no período, pelo desgaste do modelo de negócio e pela concorrência direta de outros formatos e canais, e deverão ter crescimento próximo a zero em 2018, um pouco melhor do que a média de 2011-2017 quando o crescimento foi negativo em 3% no período.

Da mesma forma, outro segmento que vem perdendo mercado continua a ser o das lojas de departamentos tradicionais que deverão ter crescimento negativo próximo a 1% em 2018, quando tiveram média negativa de 2,9% no período de 2011 a 2017.

Para as lojas de alimentos e bebidas, incluindo supermercados, lojas de conveniência e outras, o crescimento neste ano passado deverá ser próximo a 3,4% e na média de 2011 a 2017 foi de 3,1%. Sempre lembrando que esse setor tem sofrido a concorrência mais direta das drugstores que ampliaram sua oferta dessas categorias em suas lojas e o varejo não loja e o food service já que ambos têm tido importante expansão pela mudança de hábitos envolvida nessas categorias.

O fim próximo desse ciclo de exuberância ?

Um ciclo tão longo de forte crescimento como o experimentado pela economia norte-americana como foi o atual já desperta fortes preocupações em diferentes segmentos globais, não sendo poucos os que preveem uma reversão próxima desse quadro pelo esgotamento dos elementos que proporcionaram essa expansão.

Acrescente-se a esses temores os desafios enfrentados pelos Estados Unidos pelo crescimento da China, as crescentes dificuldades econômicas dos países europeus, a forte expansão das economias emergentes, especialmente na Ásia, todos esses elementos contribuindo para tornar o cenário futuro um pouco mais sombrio.

Para não falarmos sobre os próprios conflitos políticos internos, envolvendo o presidente e suas relações com o Congresso, que culminaram com o atual “shutdown”com inúmeros órgãos públicos impedidos de atuar e um clima de dúvidas e incertezas que chegam até mesmo a considerar a perspectiva, improvável, de um impeachment do presidente Trump.

Como bem sabemos, deve ser muito difícil e complexo viver uma realidade tão díspar como essa.

NOTA: É com esse cenário que estaremos participando com uma delegação de mais de 230 dirigentes e executivos dos setores de varejo e consumo do Brasil da próxima NRF em Nova Iorque no período de 12 a 16 de janeiro pesquisando e avaliando os cenários e seus impactos em outros mercados.

E no período de fevereiro a março estaremos mostrando o que de mais importante pode ser apreendido num circuito de dez eventos em diversas capitais no Retail Trends – O melhor do pós NRF.

*Imagem reprodução

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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