A moda modesta vem deixando de ser um nicho para se consolidar como um mercado global relevante – e em expansão acelerada. Segundo a consultoria americana DinarStandard, no relatório State of the Global Islamic Economy 2024/25, o setor movimentou cerca de US$ 327 bilhões em 2023 (último dado divulgado) e deve alcançar aproximadamente US$ 433 bilhões até 2028.
É nesse contexto que Carima Orra, fundadora e CEO da Doha, reforça uma mudança de leitura ainda pouco capturada pelo mercado: “Não é nicho, é uma necessidade sem limite de crescimento”, disse ao M&C Talks, da Mercado&Consumo.
De família libanesa e muçulmana, a executiva transformou uma dor pessoal em negócio. Antes de fundar a marca, adaptava peças de lojas tradicionais para atender a um padrão de vestimenta mais alinhado à modéstia – sem decotes, transparências ou fendas. Ao perceber que essa demanda não era exclusiva de mulheres muçulmanas – e tampouco restrita ao público evangélico –, identificou um espaço pouco explorado no mercado: o de consumidores que buscam elegância, conforto e identidade, independentemente de religião.
Ela defende que a moda modesta está mais ligada a comportamento do que a crença – e que, por isso, tende a crescer de forma transversal.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida à ao M&C Talks:
M&C Talks — O que é, na prática, moda modesta hoje?
Carima Orra — A gente trouxe uma abordagem do luxo associado ao conforto. A moda modesta não é só sobre estética, é sobre modéstia mesmo – sem decote, transparência ou fenda, por exemplo.
Esse mercado ainda é visto como nicho?
Eu não vejo como nicho. Vejo como uma necessidade que não tem limite. Não é como uma moda gestante, que tem um período de uso. É identidade.
Como surgiu a Doha?
Eu fui influenciadora antes de ser empresária. Eu vivia essa dor. Comprava roupas em lojas comuns e precisava adaptar. E percebi que não era só comigo – várias mulheres faziam o mesmo.
Esse público vai além da comunidade muçulmana?
Sim, e isso me surpreendeu muito. A maioria das clientes não é muçulmana nem evangélica. São pessoas que querem consumir esse estilo.
O que isso revela sobre comportamento de consumo?
Mostra que é uma moda inclusiva. A gente não exclui ninguém – cria opções. A mesma peça pode ser usada de formas diferentes por diferentes perfis.
Existe uma oportunidade de mercado ainda pouco explorada?
Total. É um mercado global gigante, com marcas de luxo já olhando para isso. E ainda muito espaço para crescer.
O Brasil está preparado para esse movimento?
O Brasil tem público para tudo. Quanto mais inclusiva for a marca, mais ela vende. Existe demanda – falta oferta estruturada.
As redes sociais ajudaram a acelerar esse mercado?
Muito. Foi ali que a comunidade se formou. As pessoas começaram a compartilhar soluções, adaptações e necessidades.
Existe também um papel cultural nesse movimento?
Sim. É desmistificar. Quebrar preconceitos. Mostrar de forma leve o que é essa cultura e esse estilo.
Qual o principal canal de venda hoje?
O e-commerce é o principal. Tenho um showroom, mas a maior parte das vendas é online, para o Brasil inteiro.
Imagem: Kaique Gouveia/Gouvêa Experience















