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Integrar para não entregar. Ou o preço da omissão

Momentum nº 1.174

Marcos Gouvêa de Souza de Marcos Gouvêa de Souza
8 de junho de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos
Integrar para não entregar. Ou o preço da omissão

A omissão também é uma decisão.

O setor privado brasileiro, nos tempos recentes, construiu uma narrativa de autopreservação disfarçada de pragmatismo, mantendo distância dos grandes debates políticos nacionais, evitando o desgaste, protegendo o negócio, a marca e as operações.

Em parte com razão, pois, nos tempos mais atuais, a exposição individual pode ser punida com a pura e simples perseguição ou até mesmo condenação.

O resultado está à vista. Os temas que mais impactam a competitividade, a produtividade e, principalmente, o futuro da Nação têm sido sistematicamente delegados à esfera pública.

E essa esfera os encaminha segundo sua própria lógica, seus próprios ciclos, seus próprios incentivos e quase sempre balizados pela próxima eleição.

O setor empresarial se tornou, na prática, contribuinte compulsório de um projeto do qual não faz parte.

Para separar conceitos

Existe uma ilusão conveniente, e em parte necessária no mundo corporativo, de que manter-se acima das disputas político-partidárias é sinônimo de distanciamento institucional. E já se sabe que quem não gosta de política deve se acostumar com a ideia de que será dirigido por quem gosta. Com todas as suas consequências.

Existe, de certa forma, uma deliberada ou confortável confusão entre esses dois planos completamente distintos envolvendo política partidária e política nacional.

Não ter preferência político-partidária é uma opção democrática.

Não tomar partido sobre a educação, aspectos macroeconômicos, taxas de juros, infraestrutura logística, regras do trabalho, previdência, sistema tributário, agenda de inovação, só para citar alguns temas nacionais, é omissão estratégica. Não é neutralidade. E omissão sempre tem seu preço.

O vácuo deixado pelo setor privado nos grandes temas nacionais não permanece vazio. É ocupado por propostas nem sempre alinhadas ao desenvolvimento do mercado por visões eleitoralmente convenientes de curto prazo, por agendas setoriais ou regionais fragmentadas e que, no seu todo, quase nunca se convertem em projetos da Nação.

As lideranças empresariais do Brasil são, na sua média, das mais competentes nos limites de suas empresas e de seus segmentos, pois foram forjadas na adversidade, na instabilidade, no imponderável – e, em tempos passados, num cenário econômico e inflacionário imprevisível.

Isso criou uma cultura de liderança flexível, adaptável, criativa e inovadora, pois essa sempre foi a condição de sobrevivência. Mas com a distorção de privilegiar o curto e médio prazos e com menor propensão ao equilíbrio com o estratégico de longo prazo.

Apesar da inegável competência na gestão de seus negócios, essas lideranças tendem a subestimar, ou evitar, as discussões públicas determinantes dos grandes temas nacionais. Ainda que, em ambientes fechados, todos tenham clara visão do que poderia e deveria ser feito para mudar o cenário, as perspectivas ou, de forma ainda mais ambiciosa, o futuro.

De alguma forma essa cultura estratégica institucionalizada é explicada, em parte, pela substituição dos líderes empresariais que desenvolveram seus negócios ao longo do tempo por lideranças executivas cujo vínculo com essas empresas e setores pode ser passageiro.

A fronteira da competitividade de qualquer organização não termina nos limites da empresa. Ela se estende até a qualidade da força de trabalho formada pelo sistema educacional, até a eficiência da infraestrutura que move sua cadeia, até a previsibilidade regulatória que calibra seu horizonte de investimento e na relevância de sua marca e negócios nas cadeias globais.

Ignorar essa realidade é conforto, conformismo, acomodação e ausência de compromisso com o futuro. E apequenar o seu legado.

A objeção mais comum é conhecida. Não somos políticos. Nossa função é gerar renda, empregos e resultados.

Mas lideranças empresariais com a dimensão global, o capital intelectual, a visão de mundo e o poder de influência que o setor privado brasileiro concentra têm uma responsabilidade que transcende balanços e resultados de seus negócios. Países que construíram vantagens competitivas sustentáveis e de longo prazo têm nas lideranças do setor privado participação ativa da formulação de projetos nacionais. Exemplos são eloquentes no Japão, Coreia, Singapura, Suécia ou Noruega.

No Japão, os grandes grupos empresariais participam da elaboração das políticas públicas através do Keidanren. Na Coreia, os chaebols foram parceiros explícitos da estratégia global do país. Em Singapura, a relação entre liderança pública e setor privado é institucionalizada e contínua. Na Suécia e na Noruega, as grandes corporações participam ativamente das agendas de inovação, educação e transição energética.

Protagonismo estratégico

O Brasil vive uma confluência rara de fatores que o beneficiam estratégica e estruturalmente envolvendo questões energéticas, reindustrialização global, reordenamento do emprego, reconfiguração das cadeias de suprimento, transformação tecnológica, demanda por alimentos e outras que o colocam diante de uma oportunidade histórica que pode não se repetir no futuro próximo da mesma forma. E não temos o direito de ignorar essa perspectiva.

O momento de repensar a postura das lideranças empresariais é agora não por idealismo, mas por contingência de uma escalada de ameaças com as quais temos convivido e que comprometem a visão da Nação.

No entanto, temas relevantes e estratégicos como escalas de trabalho, taxação de importações, segurança, programas sociais, educação para o futuro, custo e eficiência do Estado, transição energética, demografia e emprego têm sido tratados de forma açodada e com visão simplista e eleitoreira.

Ter consciência desse momento crítico exige um projeto, uma proposta e uma outra atitude. E são as lideranças do setor empresarial que podem, e sabem, como reconfigurar e alinhar esses elementos em prol da Nação.

Mas precisam mudar sua atitude e forma de atuação. Assumir protagonismo estratégico não é apenas marcar presença em fóruns, participação em debates ou assinatura de manifestos. Envolve compromisso com 4 movimentos concretos:

  1. Construir posição pública sobre os temas estruturais do país envolvendo educação, infraestrutura, inovação, tecnologia, tributação e regulamentação com o mesmo rigor analítico aplicado às decisões de seus negócios e com a visão de longo prazo;
  2. Articular essas posições de forma supra setorial e regional, priorizando o projeto nacional sobre o interesse corporativo imediato quando os dois conflitarem. Integração de longo prazo vale mais que vitórias táticas, regionais ou setoriais de curto prazo;
  3. Integrar da forma possível segmentos, categorias, setores e regiões com a visão de que a complexidade dos cenários em transformação exige pensar além da realidade dos seus negócios e com a grandeza proporcional aos desafios presentes;
  4. Aceitar que o desgaste é parte do necessário e inadiável protagonismo. Quem tem posição terá adversários e quem tem adversários é porque defende algo que importa para a Nação. E o conforto da omissão tem um preço muito maior no longo prazo

A liderança que o momento exige

O líder empresarial deste momento não deveria ser apenas aquele que domina os elementos potencializadores de resultados de seu negócio, mas adicionalmente aquele que tem a visão e a coragem de reconhecer que seu mandato de liderança não termina nos limites da sua organização. E que seu exemplo como atitude pode e deve inspirar seus colaboradores e muitos mais a se engajarem nessa transformação estrutural.

Fácil de explicitar, mas realmente complexo de avançar, dado o crescimento exponencial de desafios gerados pelos cenários em transformação envolvendo os conflitos globais, as questões econômicas, regulatórias e políticas locais e, principalmente, a escalada de ações que envolve tudo pela eleição.

O Brasil não tem escassez de empresários competentes e decisivos em seus negócios e setores. Mas temos escassez de lideranças dispostas a exercer protagonismo estratégico no plano nacional, compreendendo que a ausência desse protagonismo é, por si só, o maior risco de todos.

E os fatos estão aí e são irrefutáveis. É preciso integrar e agir agora, pois o preço da conveniente omissão será cada vez maior. E pode se tornar irreversível.

Reflexão final

Qual seria o país em que viveríamos hoje se as lideranças do setor privado brasileiro tivessem exercido protagonismo estratégico nos últimos 20 anos com a mesma competência com que gerem seus negócios?

Nota: No próximo dia 16 de junho, o Digitail, no auditório da ESPM, contará com a participação de líderes dos setores de varejo, consumo e serviços discutindo as transformações setoriais potencializadas pela Inteligência Artificial e seus impactos nas estratégias das empresas. Maiores informações e participação podem ser acessadas por aqui.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: ChatGPT

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Marcos Gouvêa de Souza

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's, publisher da plataforma MERCADO&CONSUMO e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.

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