Nesta semana, perto de 2.600 brasileiros participarão da NRF Show 2026, que acontece em Nova York, em sua 116ª versão, e que, no total, deverá receber mais de 40 mil visitantes de todo o mundo. Uma vez mais, as delegações brasileiras deverão reunir o maior contingente de participantes internacionais.
O evento é o mais importante realizado nos EUA, reunindo os diversos canais, formatos e categorias de varejo, e tem apresentado desempenho positivo, porém pressionado pela crescente participação do varejo de valor nas diferentes categorias de produtos, pelo aumento de custos e pelo crescimento das vendas diretas das marcas e fornecedores por meio dos marketplaces e do cross border.
Outro elemento de importância na transformação é o aumento da participação de serviços e soluções na oferta do varejo e das marcas, reconfigurando o perfil de dispêndios dos consumidores, sendo o exemplo mais eloquente a evolução das compras de bebidas e alimentos por meio do foodservice, que aumentou de 48% no período pré-pandemia para 59% atualmente.
Os mais de 1.200 expositores, incluindo várias marcas e empresas brasileiras, disputarão a atenção dos varejistas globais que visitam o evento. Aa intensa programação de encontros, reuniões, fóruns, visitas, além do próprio evento em si, tornam o período uma maratona de atividades, na qual todos respiram e repensam o presente e o futuro do setor.
Sem dúvida, há muito a aprender e repensar. No entanto, é necessário considerar que o varejo e o mercado brasileiro também têm muito por ensinar para inspirar o mercado global.
Pix é referência em pagamentos e redução de custos
Um dos temas críticos para o varejo norte-americano é o aumento de custos das transações por meio de cartões de crédito e débito. O mercado, dominado por poucas bandeiras, tem demandado esforço, em especial dos varejistas, para tentar reduzir os valores envolvidos com essas operações.
No último ano, as despesas totais com a intermediação via cartões nos Estados Unidos atingiram um recorde de US$ 187,2 bilhões, segundo dados divulgados pela NRF, atingiu um recorde de US$ 187,2 bilhões, representando uma despesa média de US$ 1,2 mil por família norte-americana.
No Brasil, temos um quadro absolutamente diverso em função do Pix, lançado em 2020, desenvolvido e controlado pelo Banco Central. O meiode pagamento já representa mais de 50% das transações no varejo e segue em processo de aumento de participação, impulsionado pelas novas modalidades que têm sido desenvolvidas.
A plataforma trouxe uma redução importante de custos para o varejo, que paga em torno de 10% nas transações feitas com cartões de crédito.
Como referência, e com base em dados do Banco Central, o custo do Pix para o varejo oscila entre 0,22 e 0,33% por transação. No cartão de débito, varia entre 1% e 1,13%, enquanto no cartão de crédito varia entre 2,2% e 2,34%.
Não surpreende, portanto, que o governo Trump tenha tentado colocar o Pix na pauta de temas considerados sensíveis aos interesses norte-americanos, ainda que em outros mercados globais, como a Índia, também existam meios de pagamentos equivalentes crescendo em participação.
Serviços financeiros pelo varejo do Brasil é benchamarking global
O varejo brasileiro, por contingência e necessidade de sobrevivência, precisou desenvolver suas próprias plataformas de crédito para poder viabilizar a venda ao consumidor final que, no passado, recebia menor atenção dos grandes conglomerados financeiros.
Assim, foram criadas operações importantes de crédito, com o “carnê” e outras modalidades, incluindo os pagamentos sem acréscimo.
Com o tempo, as operações básicas de crediário evoluíram para financeiras e, posteriormente, em alguns casos, transformaram-se em bancos, como ocorreu com o Carrefour, a Midway-Riachuelo, entre outros.
Ao mesmo tempo, alguns varejistas criaram operações em sociedade com bancos, como o Magalu e o Grupo Pão de Açúcar.
Outros players nascidos digitais partiram para operações financeiras integradas às suas plataformas, como foi o caso do Mercado Livre.
Os processos, plataformas, tecnologia e a cultura de serviços financeiros integrados à atividade de varejo no Brasil constituem outro benchmark global, que expandiu seu mercado a tal ponto que organizações como o Carrefour passaram a ter mais de 50% de seu resultado derivado da atividade financeira, e entre 30 e 40% nos casos de Magalu, Renner e Riachuelo.
Essa situação no Brasil e em alguns outros mercados latino-americanos, como Chile, México, Colômbia, Peru, entre outros, diferencia-se dos mercados mais desenvolvidos da Europa e América do Norte e vem sendo, nestas regiões, desenvolvida em escala ainda incipiente por meio do mecanismo de buy now, pay later, que vem sendo implantado.
Operar varejo com inflação elevada
O varejo brasileiro se desenvolveu em períodos de inflação elevada e hiperinflação e precisou se tornar resiliente, flexível, dinâmico e quase estoico para conseguir sobreviver.
Isso criou uma cultura de adaptabilidade, velocidade e criatividade, elementos presentes até hoje nos seus modelos de negócios e que, de alguma forma, também estimularam a informalidade como fator de sobrevivência.
Esse contexto ajuda a explicar como o setor consegue conviver com níveis reais de taxas de juros entre os mais altos do mundo e, ainda assim, desenvolver novos conceitos, formatos, canais e modelos de negócios.
Mesmo resiliente ao extremo, o varejo brasileiro ainda enfrenta a concorrência crescente do avanço inevitável dos fornecedores e de marcas que chegam diretamente ao consumidor final, além da concorrência dos marketplaces globais, que ainda contam com alguns benefícios tributários, tornando a competição ainda mais desigual.
A desigualdade tributária, que já foi maior, ainda é um fator complexo, sustentado por uma visão distorcida e míope de que isso pode favorecer os consumidores de menor poder aquisitivo, desconsiderando a transferência de emprego e renda que isso precipita.
O toque humano faz a diferença no ambiente digital
Em outra vertente, o varejo brasileiro também apresenta características próprias em tudo que envolve a criação de experiências que dependem da naturalidade das relações humanas, as quais se tornam ainda mais vitais à medida que crescem as opções digitais.
O jeito de ser, assim como a importância do lado humano nas relações entre marcas, produtos, negócios, empresas e pessoas no Brasil, tem a seu favor uma afinidade cultural natural, desenvolvida a partir da miscigenação de muitas raças, origens e da fusão de culturas que, em algum momento, estimulou o historiador Arnold Toynbee a considerar o Brasil como o maior cadinho humano do mundo.
E que, em tempos de uma combinação virtuosa de tecnologia, digital e Inteligência Artificial com toque humano, tornam o varejo brasileiro privilegiado para compor e se diferenciar nesses aspectos.
Para fechar
Muito por aprender, pensar e integrar nesse período de intensa, profunda e ampla imersão no ainda maior varejo do mundo, em termos absolutos e em US$. Pelo critério de PPP, o varejo da China já teria superado o varejo norte-americano.
Seguramente, haveria outros temas passíveis de serem considerados e incorporados, mas é importante considerar alguns desses aspectos que tornam o varejo brasileiro muito particular, a ponto de algumas das maiores organizações globais do setor, como o próprio Walmart, terem optado por sair do País, depois de tentar conviver por quase 20 anos enfrentando essa realidade.
E mais ainda, refletir por que não converter tanta experiência, resiliência, capacidade de reinvenção e visão em elementos que ajudem o próprio repensar estratégico da nação. Fica o convite à reflexão.
Notas:
Nesta semana, estamos participando do NRF Show, em NY, apoiando a delegação do Ecossistema Gouvêa, que reúne líderes dos setores de varejo, consumo e serviços do Brasil. No dia a dia, a cobertura exclusiva na plataforma Mercado&Consumo traz o que de mais importante acontece e é discutido.
No dia 14 de janeiro, o Retail Executive Summit, diretamente da sede do TikTok, em NY, mostrará uma síntese do que de mais importante aconteceu e seu impacto no mercado brasileiro. Esse evento terá transmissão exclusiva e poderá ser acompanhado mediante pré-inscrição por este link.
No dia 27 de janeiro, no Teatro Claro, em São Paulo, teremos um aprofundamento de todos esses temas com debates e apresentações que vão mostrar como considerar e usar tudo que foi aprendido, discutido e analisado para uso imediato no dia a dia dos negócios nos setores de varejo, consumo e serviços no Brasil. Inscrições por este link.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Felisberto Augusto/Gouvêa Experience














