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Home Artigos

Os sinais fracos e caminhos para o foodservice brasileiro

Eduardo Bueno de Eduardo Bueno
13 de maio de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 4 minutos

Ainda persiste um paradoxo importante no Brasil: apesar de o desemprego estar nas mínimas históricas, o rendimento médio real em suas máximas e a inflação sob controle, o consumo no geral não tem mostrado reação positiva ao cenário macroeconômico, incluindo o foodservice. Entre muitos fatores, a inadimplência tem sido uma barreira cada vez maior ao consumo das famílias – atingindo 82,8 milhões de brasileiros em março de 2026, segundo a Serasa Experian.

Em meio a esse contexto complexo, de acordo com os dados do Crest (Consumer Reports on Eating Share Trends), o gasto no foodservice brasileiro alcançou R$ 50,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, estagnado em relação ao mesmo período de 2025. Essa ausência de crescimento refletiu a forte queda de 5% no tráfego, que chegou ao patamar de 2,3 bilhões de visitas no trimestre.

Enquanto o setor está inerte, sob pressão, e com desafios permanentes em relação ao tráfego, o ticket médio segue sua trajetória de ascensão, mantendo-se em um dos seus patamares históricos mais elevados. Em abril, mencionei em artigo na Mercado&Consumo como os preços exercem uma pressão maior sobre o consumo nos anos recentes, e seu aumento acrescenta mais desafios à decisão de compra, além de evidenciar a alta no ticket médio.

Diferentes recortes do foodservice brasileiro explicam o recuo nos gastos. A queda do consumo é registrada em super e hipermercados, padarias, bares, restaurantes de selfservice e lojas de conveniência – segmentos de diferentes perfis e posicionamentos de preços. Entre as diferentes ocasiões de consumo do dia, observa-se recuo importante em refeição matinal e no lanche da tarde. Porém, destaque positivo para o almoço e refeições noturnas, que subiram.

O poder do delivery resulta também de investimentos

Em relação aos canais, consumo no local de compra (salão, balcão, praça de alimentação): houve alta no tráfego, e o destaque positivo fica para o Delivery, que tem mostrado performance consistentemente positiva – dadas as transformações no canal, e os investimentos bilionários anunciados pelos principais agregadores do País. Em minha análise, podemos esperar ainda mais força no canal, que volta a ampliar seu peso dentro do mix de ofertas no foodservice.

Em termos sociodemográficos, atenção especial para a queda de consumo das classes B, C, D, e E, que reúnem a maior parte da população brasileira. Considero importante que seja estabelecida uma estratégia de preços diversificada e pautada em promoções que mesclem descontos agressivos, com preços competitivos, de modo a atrair consumidores com diferentes disponibilidades de renda para gastar.

O sinal fraco de melhoria precisa ser destacado

Apesar dos desafios mencionados, há dois sinais fracos que apontam para uma potencial melhoria de cenário no foodservice brasileiro. São eles: a recuperação lenta da penetração e a frequência de consumo, que, ao menos, parou de cair, segundo o Crest. Em termos de penetração (ou seja, consumo real em relação ao consumo potencial), a penetração tem mostrado lenta, mas consistente desde o início de 2025, atingindo seu melhor patamar dos últimos 21 meses.

Esse movimento, no entanto, ainda não é suficiente para determinar, isoladamente, a recuperação do tráfego e a retomada do crescimento do setor. A frequência de consumo mensal também exerce papel fundamental. No Crest, os consumidores são classificados em: consumidores de baixa, média e alta frequência – isto é, aqueles que compram de uma a duas vezes ao mês, de três a quatro, e cinco vezes ou mais, respectivamente.

Nos últimos anos, observamos que a frequência estava reduzindo, com maior peso dos consumidores de baixa frequência, e menor peso das frequências média e alta. Ou seja, havia consumidores consumindo cada vez menos mês a mês – com impactos significativos no tráfego do setor – que depende da quantidade de pessoas (penetração) e da sua frequência de consumo mensal. Isto é, para o tráfego crescer, é necessário que haja mais pessoas consumindo, e que seu consumo individual seja mais frequente mês a mês.

O peso da frequência e os sinais de reação do mercado 

No primeiro trimestre de 2026, porém, houve um importante alento: o peso da baixa frequência ficou estável, e consumidores de média frequência ganharam espaço. Consumidores de alta frequência ainda mostraram queda – sinalizando que o aumento do consumo está ocorrendo de forma muito lenta e conservadora. Apesar da queda de tráfego, em termos de frequência, observamos um sinal fraco apontando para potencial melhoria ao longo de 2026 – ainda que possa significar quedas de tráfego menos intensas (que as observadas nos últimos trimestres) antes de significar crescimento efetivo.

Com isso, é possível afirmar que o foodservice ainda vive um contexto complexo de redução de consumo, mas há crescimento (ainda que insuficiente) em alguns canais e ocasiões, e sinais fracos que sinalizam uma potencial recuperação quando analisamos a lenta alta da penetração e da frequência, que parou de cair.

O desafio do setor, mais do que nunca, é manter preços e ofertas competitivos para atrair mais consumidores, e possibilitar que eles aumentem seu consumo diário e mensal – esse é o caminho para uma recuperação efetiva do tráfego.

Nota: Nos próximos dias, estarei em Chicago fazendo visitas técnicas a diferentes operações e participando, mais uma vez, do NRA Show, e escreverei diariamente artigos para a Mercado&Consumo com as principais novidades e aprendizados, e como traduzi-los para a realidade brasileira.

Eduardo Bueno é gerente de Business Development na Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Freepik

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Eduardo Bueno

Eduardo Bueno

Economista formado pela USP e pós-graduado em Gestão de Projetos pelo Insper, atualmente é coordenador de projetos na Mosaiclab e responsável pelo projeto CREST no Brasil. Tem experiência no mercado financeiro, consultoria macroeconômica, Analytics, Compras, além de implementação de projetos de SAP. Atua com inteligência de mercado desde 2015 e, desde 2017, com o setor de Foodservice, com passagem em um dos maiores operadores do setor no país.

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