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Home Artigos

Quando inteligência deixa de ser escassa

Carolina Cândido de Carolina Cândido
14 de julho de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos

A Inteligência Artificial não está apenas automatizando tarefas. Está alterando a economia da produção de conhecimento. Você já refletiu sobre o que acontece quando a inteligência deixa de ser escassa? Grande parte da teoria econômica pode ser interpretada como o estudo da alocação de recursos escassos. Capital, trabalho, energia, terra, tempo e informação sempre impuseram restrições à capacidade produtiva das organizações.

O progresso tecnológico, historicamente, alterou essas restrições ao reduzir o custo relativo de determinados fatores de produção e deslocar os gargalos do sistema econômico. A máquina a vapor reduziu o custo da energia mecânica. A eletrificação transformou a organização da produção industrial. Os computadores diminuíram drasticamente o custo do processamento de informações. A internet praticamente eliminou o custo marginal da distribuição de conhecimento.

A Inteligência Artificial generativa inaugura uma mudança de natureza distinta. Pela primeira vez, uma tecnologia atua diretamente sobre aquilo que, até então, permanecia como um dos recursos mais escassos das organizações intensivas em conhecimento: a capacidade de produzir inteligência.

Pesquisar, sintetizar a literatura, estruturar hipóteses, construir cenários, comparar alternativas, elaborar documentos técnicos e produzir análises sempre dependeram de profissionais altamente qualificados e de um insumo limitado: o tempo cognitivo. Os grandes modelos de linguagem (LLMs) reduzem drasticamente o custo marginal dessas atividades. Não eliminam a necessidade de especialistas, mas alteram profundamente a economia da produção intelectual.

Esse deslocamento modifica o próprio locus da vantagem competitiva. Durante décadas, as organizações construíram diferenciação justamente pela capacidade de produzir inteligência. Inúmeras organizações de serviços profissionais organizaram seus modelos de negócio em torno dessa escassez. Quando o custo de geração da inteligência diminui de forma significativa, a própria estrutura de criação de valor precisa ser revisitada.

A questão estratégica deixa, portanto, de ser tecnológica. Ela passa a ser econômica. A pergunta relevante não é quanto da atividade intelectual será automatizada, mas qual recurso permanecerá escasso quando a produção de inteligência deixar de sê-lo.

Essa mudança ajuda a interpretar um aparente paradoxo observado nos dados recentes. A McKinsey estima que a Inteligência Artificial generativa possua potencial para adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões anuais à economia mundial. Em paralelo, pesquisas recentes do NBER e do Federal Reserve de Kansas City indicam que a maior parte das organizações ainda não observa ganhos significativos de produtividade decorrentes da adoção da tecnologia. Longe de representar uma contradição, esse descompasso reproduz um padrão recorrente na história das grandes tecnologias de propósito geral.

Paul David demonstrou que a eletrificação levou décadas para produzir impactos mensuráveis sobre a produtividade industrial porque, inicialmente, as fábricas apenas substituíram máquinas movidas a vapor por motores elétricos, preservando a arquitetura organizacional anterior. Apenas quando processos, layouts, rotinas e sistemas de gestão foram redesenhados em torno da nova tecnologia é que os ganhos começaram a emergir. Erik Brynjolfsson, Daniel Rock e Chad Syverson formalizaram esse fenômeno ao descrever a chamada Curva J da produtividade.

Tecnologias de propósito geral (GPTs) tendem a exigir elevados investimentos em ativos intangíveis — reorganização de processos, aprendizagem, desenvolvimento de capacidades, mudanças institucionais e adaptação gerencial — antes que seus benefícios se tornem observáveis nos indicadores agregados de produtividade. A Inteligência Artificial parece estar exatamente nesse estágio.

A discussão corrente concentra-se na adoção de ferramentas, quando a variável economicamente relevante é a transformação organizacional. O investimento visível ocorre em licenças de software, infraestrutura computacional e modelos fundacionais. O investimento invisível, muito mais complexo, reside no redesenho dos processos decisórios, dos mecanismos de coordenação, da governança do conhecimento e das rotinas de trabalho. É precisamente esse conjunto de ativos complementares que explica por que tecnologias potencialmente revolucionárias frequentemente convivem, durante anos, com estatísticas aparentemente decepcionantes de produtividade.

Essa interpretação possui implicações particularmente relevantes para organizações intensivas em conhecimento. Diferentemente das revoluções anteriores, a Inteligência Artificial não automatiza predominantemente tarefas físicas ou administrativas; ela incide diretamente sobre atividades cognitivas de elevada qualificação.

Segundo o Fundo Monetário Internacional, aproximadamente 40% dos empregos globais serão impactados pela IA, percentual que alcança cerca de 60% nas economias avançadas. O estudo GPTs are GPTs, publicado na Science, estima que aproximadamente 80% da força de trabalho norte-americana possui pelo menos uma parte substancial de suas atividades potencialmente afetadas por grandes modelos de linguagem.

Esse dado merece uma interpretação cuidadosa. O principal efeito econômico talvez não seja a substituição imediata de profissionais, mas a compressão do prêmio associado à produção rotineira de inteligência. Pesquisas exploratórias, sínteses, benchmarks, estruturação inicial de argumentos e produção de conteúdo tendem a experimentar rápida redução de valor relativo. Em termos econômicos, ocorre um processo de comoditização de atividades cuja escassez sustentava parte importante da diferenciação competitiva das empresas de conhecimento.

Entretanto, a redução da escassez em uma dimensão não elimina a escassez do sistema; apenas a desloca. Se produzir inteligência se torna relativamente barato, outros recursos passam a concentrar valor econômico. Contexto, julgamento, capacidade de coordenação, discernimento estratégico, confiança institucional, legitimidade organizacional e execução tornam-se ativos relativamente mais escassos e, portanto, relativamente mais valiosos.

É justamente nesse ponto que emerge o principal desafio gerencial da próxima década: a IA reduz drasticamente o custo de geração de alternativas, mas não reduz, na mesma proporção, o custo de selecionar entre elas. Pelo contrário, à medida que aumenta o volume de hipóteses plausíveis, amplia-se também a complexidade da coordenação organizacional. O problema deixa de ser a insuficiência de informação e passa a ser excesso de possibilidades. O gargalo desloca-se da produção de inteligência para a arquitetura do discernimento.

Essa mudança ajuda a compreender por que diversas organizações experimentam aumento expressivo na produção documental sem observar avanços equivalentes na qualidade decisória. Fluidez textual, abrangência analítica e velocidade de geração não são substitutos perfeitos para o julgamento. Estudos recentes da BCG e de pesquisadores da Harvard Business School mostram que, em tarefas de alta complexidade (fora da fronteira de competência dos modelos), profissionais frequentemente produzem respostas mais convincentes do que corretas, ampliando o risco de que a qualidade percebida seja confundida com a qualidade efetiva.

Implicações estratégicas: a combinação entre tecnologia, desenho organizacional e capacidades complementares 

As implicações estratégicas dessa transformação vão além da adoção tecnológica. Empresas precisarão decidir quais competências desejam preservar internamente, quais atividades podem ser delegadas à IA, como evitar a erosão da expertise humana, segundo um estudo realizado pela Microsoft em 2025, e, sobretudo, como converter ganhos individuais de produtividade em capacidades organizacionais permanentes. A experiência histórica sugere que as organizações vencedoras não serão necessariamente aquelas que utilizarem mais Inteligência Artificial, mas aquelas capazes de reorganizar seus sistemas de decisão, aprendizagem e coordenação em torno dela.

A história das tecnologias de propósito geral ensina que as vantagens competitivas raramente emergem da tecnologia isoladamente. Elas surgem da combinação entre tecnologia, desenho organizacional e capacidades complementares. A Inteligência Artificial provavelmente seguirá essa mesma lógica. O verdadeiro diferencial competitivo da próxima década não estará na capacidade de produzir mais inteligência, mas na capacidade de transformar a abundância cognitiva em discernimento econômico, coordenação organizacional e produtividade efetiva.

Carolina Cândido é consultora na Gouvêa Consulting.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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