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Home Artigos

A evolução do varejo alimentar: do balcão para o pós-digital 

Hugo Bethlem de Hugo Bethlem
20 de fevereiro de 2025
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 5 minutos
Brasil sobe quatro posições em ranking de competitividade digital

Ontem, participei de uma conferência por vídeo, que podemos classificar como antológica. Faço parte de um grupo de varejo no WhatsApp que troca muitas informações e conhecimentos, gerando muito valor para todos os participantes. Durante essa conferência, tivemos o prazer de ouvir o João Rozário da Silva, uma verdadeira lenda viva do varejo alimentar de autosserviço.

João compartilhou histórias inestimáveis sobre o início dos supermercados no Brasil. Ele esteve diretamente envolvido na criação do Sirva-Se em 1953, em Higienópolis, na esquina das ruas Maria Antônia e Major Sertório, onde hoje funciona uma loja Pão de Açúcar, empresa que comprou o Sirva-Se, em 1965. Ele nos contou como era a reação e aceitação dos clientes, como eram feitos o abastecimento da loja e das gôndolas, e como essa revolução no conceito de compras impactou o varejo tradicional, onde os produtos eram vendidos a granel e servidos no balcão.

Mas vamos falar do presente e das evoluções que o varejo teve ao longo dos últimos 100 anos, tanto no mundo quanto no Brasil.

Philip Kotler, o papa do marketing moderno, em seu recente livro “Redefining Retail: 10 Guiding Principles for a Post-Digital World”, oferece uma visão interessante da jornada que nos trouxe até aqui e, principalmente, para onde devemos ir, o que ele chama de varejo 5.0.

Vamos relembrar a história dessa evolução

O varejo 0.0 remonta aos Fenícios na Mesopotâmia, em 6.000 a.C., quando começaram as trocas de mercadorias e bens, o famoso escambo. Esse sistema durou cerca milhares de anos, evoluindo para uma troca de mercadoria e bens por dinheiro, até que no começo do século XX vieram as grandes evoluções.

O varejo 1.0 surgiu em 1916, em Memphis, Tennessee, quando um varejista chamado Piggly Wiggly criou as primeiras gôndolas e checkouts, permitindo que os clientes fizessem seu próprio abastecimento. Isso mudou radicalmente as indústrias de bens de consumo e o sistema logístico.

O varejo 2.0, nos anos 20 e 30, trouxe o conceito de “tudo sob o mesmo teto”, permitindo que, com uma única ida à loja, o cliente resolvesse as compras. João Rosário destacou que, na época do sirva-se, os clientes valorizavam não apenas a facilidade de escolher e pagar pelos produtos, mas também a conveniência de encontrar tudo em um só lugar. Esse modelo de autosserviço já mostrava seu diferencial, facilitando a vida do cliente.

Eu vivi a chegada do Carrefour no Brasil, em 1975, e, em 1979, comecei a trabalhar lá, quando havia apenas quatro lojas. O conceito de hipermercado era ainda mais agressivo na entrega da solução “tudo sob o mesmo teto”, combinando alimentos e não alimentos, como eletroeletrônicos, têxteis e bazar. Esse modelo reduziu significativamente o tráfego a pé e transformou a intensidade das compras, de alta frequência com baixos volumes, para baixa frequência com altos volumes.

O varejo 4.0, nos anos 90, desponta o e-commerce, possibilitado pelo advento da internet. No início, em 1994, atendia 40 milhões de pessoas no mundo, com um tráfego de dados de 56 kilobits por segundo. Hoje, o e-commerce atende aproximadamente 5,1 bilhões de pessoas no mundo, com um trânsito de dados de até 6.000 megabits por segundo. Houve uma mudança de paradigma, em que o cliente não precisava mais sair de casa para escolher seus produtos. O modelo avançou mais rapidamente no varejo não alimentar, mas também vem crescendo no alimentar, especialmente na China. Outro impacto importante foi o surgimento dos marketplaces, que transformaram indivíduos em “varejistas” que atendem demandas de outros indivíduos, além do fenômeno da “recomendação” nas mídias sociais.

Chegamos ao varejo 4.0, o comércio omnipresente, que começou com a demanda dos millennials e se intensificou com a covid-19 e os lockdowns. O varejo alimentar precisou rapidamente atualizar seus sistemas para o omnichannel, combinando lojas físicas, e-commerce, WhatsApp e delivery. Nos primeiros 20 anos do século XXI, o comércio teve que ser omnichannel, consolidando o P2P (pessoa a pessoa) e a desmaterialização dos meios de pagamento, além do boom do e-commerce e do D2C (direto ao consumidor, pela indústria), criando um modelo híbrido entre o mundo físico e o digital, o chamado figital.

Agora, estamos diante do varejo 5.0, a era do comércio pós-digital. A tecnologia será menos visível, mas muito mais presente. Dados serão o bem mais precioso, mudando a forma como varejo e indústrias comunicam suas vendas, buscando uma hiperpersonalização para cada cliente, potencializada pela Inteligência Artificial. Isso gerará impactos significativos no papel dos colaboradores frente à nova tecnologia.

Como encarar o futuro e a inovação, sabendo que a única constante é a mudança? Quais cuidados e atenções os varejistas devem ter com as tendências do mercado, a jornada dos consumidores, dos colaboradores e as constantes evoluções entre tecnologia e pessoas? O modelo de olhar para trás e se inspirar no que deu certo já não funciona mais. Precisamos olhar para frente, acompanhar as tendências e não ser reticentes quanto às possíveis mudanças. O mundo está mudando muito mais rápido do que as empresas e organizações conseguem se adaptar.

Então, pergunte-se: será que a cultura de nossa empresa (pessoas, processos, valores e recursos) permite que vençamos na era pós-digital? Será que nossa liderança tem a habilidade, o poder, o senso de significado, o senso de urgência e a coragem para mudar a situação presente, aceitar a oportunidade de evoluir, abraçar a incerteza, gerar inovação e até mesmo lidar com falhas?

Será que para vivermos esse futuro, não temos que co-construí-lo?

Praticar os pilares ESG (ambiental, social e governança), nos quais os 3 P’s de John Elkington, Planet, People and Profit (Planeta, Pessoas e Lucro) estão evoluindo para Planet, People and Purpose (Planeta, Pessoas e Propósito).

Vencer no mundo pós-digital não é apenas sobre comprar e vender, lucrar, negociar e operar. É sobre fazer tudo isso (básico do varejo), focando no propósito e valores da empresa, ecologicamente corretas, socialmente justas, culturalmente diversas e economicamente viáveis, encantando os clientes, tratando-os como únicos, revendo a forma e a relação comercial com a indústria, considerando o equilíbrio entre pessoas e processos, qualificando-as para esse novo mundo figital.

Hugo Bethlem é presidente do Capitalismo Consciente Brasil.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Shutterstock

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Hugo Bethlem é senior advisor para varejo na Alvarez & Marsal Performance, presidente do Capitalismo Consciente Brasil e mentor de executivos e startups.

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