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Home Artigos

Do desperdício às soluções: o legado da COP30 para o futuro dos alimentos

Cristina Souza de Cristina Souza
25 de novembro de 2025
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 5 minutos
COP 30

Pela primeira vez participei de uma edição da COP e foi transformador. Em fevereiro deste ano, escrevi o artigo COP30 e o mercado de hospitalidade no Brasil, identificando potenciais desafios para a realização do evento em Belém: infraestrutura, rede hoteleira, idiomas e linhas aéreas. Escrevo este artigo para registrar que a cidade se preparou muito para sediar o evento.

Restauração de áreas históricas, recuperação de espaços degradados, aceleração de obras de saneamento, ressignificação de espaços, construção de leitos hoteleiros, instalação de bandeiras hoteleiras de classe mundial e preparação das pessoas para receberem os visitantes com ainda mais hospitalidade do que a já é peculiar aos brasileiros e especialmente aos belenenses.

Países mandaram embarcações de apoio, e a Itália presenteou a cidade com uma praça flutuante, que se integrou a um dos espaços paralelos de ativação da COP30 em celebração aos rios e mares, já que as mudanças climáticas também os envolvem como pauta.

Essa COP30, realizada em Belém do Pará, tornou-se realmente um marco na história das discussões climáticas globais, especialmente no que diz respeito ao impacto da alimentação no futuro do planeta. De 10 a 21 de novembro, enquanto líderes mundiais, representantes da sociedade civil e grandes players da indústria debatiam soluções para a crise climática, ficou claro que os sistemas alimentares ganharam uma centralidade inédita nas conversas. Não se tratava mais sobre imaginar cenários futuros, mas de pactuar ações concretas.

E, como de costume em encontros globais como este, as conversas foram carregadas de tensão, esperança e compromissos que delineiam o que podemos esperar nos próximos anos.

Belém, com sua relação visceral com a biodiversidade da Amazônia, foi palco de debates intensos. De um lado, os impactos da agricultura e da pecuária na emissão de gases de efeito estufa não podiam mais ser ignorados. O velho modelo predatório de produção de alimentos está sendo, finalmente, questionado por líderes que, embora atrasados, começam a reconhecer que as metas do Acordo de Paris só serão alcançáveis se houver uma reconfiguração desse sistema.

A eliminação do desmatamento associado ao agronegócio brasileiro foi, sem dúvida, o ponto central das discussões envolvendo o Brasil, que, mais uma vez, se viu em uma posição desconfortável de protagonista e réu ao mesmo tempo.

Eu pude ver e viver isso em múltiplas visitas que realizei paralelas ao evento. Visitei a ilha do Combu, estive no Mercado de São Brás, no Mercado do Ver-o-Peso, na Estação das Docas, no Porto Futuro II (um espaço que integra ciência, cultura, gastronomia e inovação). Também estive em um evento com a participação do governador Helder Barbalho no Parque de Bioeconomia e Inovação, e foi especial.

Restaurantes como o Sushi Boulevard, que investe forte na fusão da gastronomia belenense com o melhor da gastronomia asiática, que, para essa oportunidade, integraram uma ação de plantio de 5 mil árvores.

Também estive no Amazônia na Cuia, que valoriza a cultura indígena em cada prato; na Sorveteria Cairu, onde pude conhecer Sr. Armando, o fundador, além de restaurantes de grandes chefs que estavam por lá alimentando convidados com o melhor da terra.

O tom da conferência deu destaque à necessidade da transição para dietas mais sustentáveis, com menor dependência de cadeias alimentares intensivas em carbono. Alternativas baseadas em proteínas vegetais — e até soluções como a carne cultivada em laboratório — entusiasmaram alguns setores. Mas, aqui, o contraponto foi forte: representantes de comunidades tradicionais e povos indígenas lembraram ao mundo que suas práticas têm muito a ensinar. Alimentar o mundo de forma sustentável passa, inevitavelmente, por ouvir aqueles que têm vivido da terra e da floresta de forma harmoniosa há séculos. Não se trata apenas de alta tecnologia ou novos produtos milagrosos, mas de resgatar conhecimento, respeitar culturas e remunerar justamente as verdadeiras guardiãs da biodiversidade.

Outro tema recorrente foi o desperdício de alimentos, que, segundo dados apresentados na primeira plenária da semana, contribui significativamente para as emissões globais de gases de efeito estufa. Velhas promessas foram recicladas, mas agora com a pressão adicional de investidores que enxergam na eficiência das cadeias de distribuição uma oportunidade econômica.

Na Ilha do Combu, estive no restaurante Saldosa Maloca (sim, se escreve com L) e ele é sustentável há mais de 15 anos. Há pouco mais de dois anos, a casa investiu em um biodigestor para amplificar seu impacto.

As grandes redes de atacado e varejo alimentar que enviaram seus representantes para o evento com discursos vistosos se comprometeram a alinhar suas práticas para apoiar metas globais de redução do desperdício. A promessa de investimentos em infraestrutura e tecnologia, como sistemas avançados de rastreamento e armazenagem, marcou um ponto interessante: aquilo que espanta pela urgência, também se revela como uma enorme avenida de inovação.

Ainda assim, o que, de fato, emocionou quem acompanhava a semana final da COP30 foi a narrativa em torno da preservação da Amazônia como parte de uma nova economia sustentável. Belém virou o centro das atenções não apenas por sua relevância geopolítica, mas porque trouxe à tona histórias de sucesso.

Cooperativas de pequenos agricultores, mulheres empreendedoras da floresta e lideranças indígenas usaram sua voz para mostrar que os alimentos nativos da Amazônia são, não apenas uma resposta ao apetite por sabores autênticos e saudáveis do mercado global, mas um modelo regenerativo, tanto para a terra quanto para as sociedades que dela dependem. Beterrabas orgânicas e castanhas frescas nunca carregaram um simbolismo tão grande.

A força das mulheres é algo lindo de ver. Novamente citando a ilha do Combu, cito a fábrica de chocolates Filha do Combu, onde mulheres colhem o cacau em sua forma mais pura e selvagem, o  processam e produzem um dos chocolates mais incríveis que pude provar na vida. Ver como a cultura de integração com o meio ambiente é poderosa foi muito especial.

Voltei e segui acompanhando, à distância, os conteúdos e as discussões finais dessa COP histórica. Mas, nada disso seria possível sem o convite da querida Natasha Paiva, belenense, empresária do setor gastronômico, advogada e investidora em diferentes frentes do setor de alimentação, com um olhar de inovação, tecnologia e sustentabilidade. A quem serei eternamente grata.

Agora, como sempre, o desafio está no pós-evento. A COP30 deixou compromissos ambiciosos e uma estrutura de metas que promete transformar a forma como o mundo produz e consome alimentos. Mas, assim como vimos em edições anteriores, tudo depende da execução. Voltar a seus países com discursos inspiradores é fácil. Implementar regulações, gerenciar impactos e repensar priorizações políticas e comerciais, muito menos. A pressão para isso, no entanto, nunca foi tão alta.

O evento encerrou-se com a sensação de que algo começou a mudar de forma real, ainda que com passos lentos. Belém não foi apenas o cenário para a COP30, mas o ponto em que o mundo pareceu realmente se lembrar de que o futuro da alimentação também é o futuro do clima — e que só há futuro se ambos estiverem conectados. Que o compromisso permaneça tão fresco na memória quanto o cheiro do açaí nativo consumido nas ruas da cidade enquanto os líderes iam embora com suas malas carregadas de ideias que agora precisam ganhar a mesa de decisões globais.

Avante!

Cristina Souza é cofundadora e CEO da Tanjerin.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Agência Brasil

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Cristina Souza

Cristina Souza

Cristina Souza é empresária e especialista em estratégia e inovação para o mercado de foodservice cofundadora e CEO da Tanjerin .

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