Inovação assistiva e inteligência adaptativa; conheça o futuro da acessibilidade

conheça o futuro da acessibilidade

Historicamente, concebemos e entendemos a acessibilidade como um esforço de adaptação. Primeiro, projetamos produtos, serviços e cidades para, só depois, identificarmos as barreiras existentes e, a duras penas, buscarmos corrigi-las. Foi assim que a humanidade se desenvolveu, de forma elitista e excludente, com uma limitação inerente e evidente: a inclusão só chegava, se chegava, depois de o projeto estar concretizado. Infelizmente, é aquela coisa de engenheiro de obra pronta, sabe como é?

Hoje, apesar dos grandes avanços recentes, ainda lidamos com a produção de erros recorrentes e com um enorme legado de recursos inacessíveis pendentes de uma devida e apropriada adaptação, adequação e acessibilização. Pergunte a qualquer pessoa com deficiência sobre as barreiras que enfrenta cotidianamente e você ficará perplexo com o calvário relatado ainda hoje.

Contudo, trago boas notícias, porque me parece que esse paradigma limitante começa a se transformar, e a finalmente evoluir com o uso cada vez mais generalizado do que vem sendo chamado de Inteligência Artificial.

Felizmente, vislumbro a inversão dessa lógica equivocada de fazer errado para depois consertar. Com a  IA, ou AI, como alguns preferem chamar, em vez de esperar a barreira aparecer, a máquina aprende padrões, compreende contextos e antecipa necessidades, inclusive tornando acessível aquilo que ainda não é acessível. Sai de cena a adaptação reativa; entra a personalização dinâmica!

Essa tremenda evolução tecnológica também reposiciona o próprio conceito de desenho universal. Seu desafio sempre foi criar uma solução única que atendesse ao maior número possível de pessoas, concebendo produtos e ambientes utilizáveis pelo maior número possível de indivíduos, sem a necessidade de adaptações posteriores.

A IA amplia essa ideia. O projeto continua universal, mas deixa de ser estático. Um mesmo produto consegue se adaptar ou ser facilmente adaptado ao reconhecer as diferenças entre os usuários e a mudar automaticamente sua interface, sua linguagem e sua forma de interação. Não existem versões distintas para públicos distintos, mas, sim, apenas uma solução capaz de acolher, se transformar e interagir com toda a diversidade humana.

E essa mudança estrutural e profunda já está em curso. Quanto mais pervasiva for a inovação inexorável promovida pelas aplicações de Inteligência Artificial, mais e melhor veremos produtos e serviços se moldando às demandas e às necessidades específicas de cada usuário.

Assistimos, com certeza, ao prenúncio de uma nova era da interação homem-máquina, cujo ápice promete acontecer com a consolidação da computação quântica e com o aumento da capacidade de processamento de nossos data centers. É difícil até imaginar o que poderio e velocidade vão resultar. Espero que isso contribua para um mundo mais igualitário e justo.

O marketing, em sintonia com a temática central deste portal, também precisará aprender essa nova linguagem. Durante muito tempo, segmentou consumidores por idade, renda ou localização. Em breve, terá que incluir as diferentes formas de perceber, compreender e interagir com o mundo. A diversidade, aos poucos, deixará de ser um nicho e passará a ser um parâmetro cada vez mais relevante.

No caso da pessoa com deficiência, a principal referência para esse câmbio de relevância são as sete dimensões de acessibilidade, concebidas pelo saudoso professor e pensador Romeu Sassaki, que oferecem um verdadeiro framework para a criação, o planejamento e a execução de ações inclusivas.

Nesse contexto, iniciativas como o NIA-InovaUSP, ou melhor, o Núcleo de Inovação em Acessibilidade do InovaUSP, revelam um caminho promissor ao abraçarem, entre outros conceitos e práticas, a multisetorialidade. “Ninguém faz nada sozinho, e é sempre um passo atrás do outro”, dizem seus coordenadores.

Acertam, também, ao colocarem a acessibilidade no epicentro da discussão sobre inteligência artificial e inovação, tanto ao focarem nos desafios da própria universidade e da academia em geral, quanto nas demandas por serviços e tecnologias assistivas para a sociedade como um todo.

Idealmente, com o poder generativo e a exemplar empatia artificial das plataformas de IA e robótica, que apenas começam a ser exploradas, daqui em diante, deixaremos de nos preocupar com o fato de uma tecnologia ser acessível ou não. A pergunta será simplesmente se ela é boa, pois a acessibilidade deixará de ser apenas reativa para se tornar proativa, antecipando-se e adaptando-se, reforçando e repetindo o que escrevi acima, às demandas específicas de cada pessoa.

Estamos falando sobre a geração atual de informações, textos, imagens, apresentações, animações, petições, vídeos e muito mais, com plena autonomia no uso e no comando das ferramentas inteligentes, o que já representa uma revolução para muita gente. Mas o potencial de transformação e inclusão vai muito além dessas tarefas digitais. Se considerarmos a genética e a genômica nessa equação, somandas à assistividade mencionada, poderemos prevenir e curar doenças e deficiências, salvar vidas e proporcionar longevidade com lucidez e plenos sentidos.

Ou seja, a Inteligência Artificial oportunizará uma desejada evolução da acessibilidade em direção ao desenho universal. De uma aspiração utópica e de um ideal praticamente impossível, sem abandonarmos seus princípios, agora teremos os instrumentos tecnológicos para tornar realidade mais este sonho inclusivo.

Para terminar, volto ao título deste artigo, que resume muito bem as reflexões e proposições aqui apresentadas. Como pessoa com deficiência e grande militante da causa, fico feliz em vislumbrar o impacto positivo que a inovação tecnológica poderá proporcionat para milhões de pessoas ainda excluídas. O futuro da acessibilidade reside no poder adaptativo da inteligência assistiva.

Cid Torquato é embaixador do ICOM
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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