Tem um problema que eu vejo se repetir em briefings de varejo: o design entra na conversa tarde demais. Depois que a estratégia foi definida, depois que o produto foi desenvolvido, depois que o espaço foi dimensionado. Chega na hora de “dar uma cara” para tudo aquilo. E aí, o que era para ser uma decisão estratégica vira uma escolha estética.
O resultado costuma ser previsível: uma loja que parece com as outras, uma embalagem que fala a língua da categoria, um espaço que não deixa memória. Não porque o design foi mal executado, mas porque foi convocado para o momento errado.
A Tony’s Chocolonely é um caso que inverte essa lógica de ponta a ponta. E vale entender por quê.
Uma marca que nasceu de uma reportagem
Em 2005, o jornalista holandês Teun van de Keuken estava investigando a cadeia de cacau para um programa de televisão. O que ele encontrou: trabalho escravo e infantil estrutural, praticado em escala, na África Ocidental, região responsável por cerca de 60% do cacau mundial. As grandes empresas sabiam. E não mudavam.
Após anos tentando mudar a indústria por dentro, van de Keuken tomou uma decisão incomum. Ele abriu uma marca comercial para provar que dava para fazer chocolate gostoso e 100% livre de escravidão. Não como ato simbólico, mas como negócio.
O que transformou essa causa em empresa global não foi uma campanha. Foi a decisão de colocar o design no centro da estratégia desde o começo — não como decoração, mas como o principal argumento da marca.
“Challengers não competem no terreno dos líderes. Eles tornam o terreno deles irrelevante.”
Adam Morgan, Eating the Big Fish, 1999
O produto que você não consegue ignorar
A primeira decisão de design da Tony’s não está na embalagem — está dentro dela. Ao abrir a barra, não há os tradicionais quadrados simétricos. Os pedaços são irregulares, de tamanhos diferentes, impossíveis de dividir em partes iguais, de maneira intencional. É uma representação física deliberada da distribuição injusta de riqueza na cadeia do cacau.
Quando você tenta quebrar o chocolate para dividir com alguém, o produto te impede. Antes de comer, você já interagiu com o problema. O manifesto da marca é literal: enquanto a indústria continuar dividida de forma desigual, a barra vai continuar assim.
O conceito se estende ao próprio molde. Vista de cima, a barra remete ao contorno dos principais países produtores de cacau, como Costa do Marfim, Gana, Togo, Benin, Nigéria e Camarões.
Existe um movimento no design contemporâneo que chama isso de design crítico, uma vertente que não busca apenas facilitar o uso, mas provocar uma pergunta. O desconforto é intencional. É a linguagem.
A embalagem como posição de mercado
O mercado de chocolate tem convenções visuais muito estabelecidas: marrom, dourado, fotos de ingredientes derretidos, tipografia polida, linguagem de prazer e indulgência. Todo mundo fala a mesma língua. E, quando todo mundo fala a mesma língua, o consumidor para de ouvir — o olho capta o que já conhece e segue em frente.
A Tony’s tomou o caminho oposto em cada decisão. Entrou com vermelho vibrante em uma categoria dominada pelo marrom. Foi longe o suficiente nessa escolha para fazer parceria com a Pantone e certificar a cor exata: o Tony’s Only Red. Não é mais uma cor de embalagem. É uma declaração.
Os demais elementos seguem a mesma lógica, com tipografia de aparência cortada à mão, papel fosco sem revestimento, zero fotografia de produto na frente da embalagem. E um detalhe que poucos percebem: na Holanda, azul tradicionalmente indica chocolate ao leite, enquanto vermelho remete ao amargo. A Tony’s inverte esse código de forma intencional, para tirar o consumidor do piloto automático e forçar um segundo de atenção antes da decisão de compra. Esse segundo é o momento em que a mensagem entra.
A loja que não tenta vender
A Super Store de Amsterdã fica perto da Estação Central, mas a entrada é discreta, abaixo do nível da rua. Não tem outdoor na frente nem sinalização de oferta. A loja não empurra — espera ser encontrada. E, mesmo assim, costuma ter fila.
O espaço foi projetado para transformar o consumidor em embaixador, não apenas em comprador. Tem máquinas aparentes, degustação gratuita e uma parede de onde as barras caem quando você gira uma manivela. A principal atração: o cliente escolhe os ingredientes, monta a própria receita, desenha a embalagem, imprime o nome. Por € 10, sai com um produto que não existe em nenhuma prateleira.
Por que isso funciona? Quando você participa da criação de um produto, o que você leva não é mais um item de consumo. É algo seu. E a história que você conta para quem você dá esse produto não é a história da marca — é a sua história. O manifesto impresso no interior da embalagem vai junto, contado por você, não por um anúncio.
A Tony’s tem uma política e não investe em mídia paga. Nenhum outdoor, nenhum comercial de TV. A loja é a materialização física dessa política.
Marca, produto e ambiente dizendo a mesma coisa
Ao longo de anos trabalhando com projetos de varejo, desenvolvi o hábito de começar sempre pela mesma pergunta: marca, produto e ambiente estão dizendo a mesma coisa?
Não se trata de estética, mas de estratégica. A marca carrega a promessa, aquilo que a empresa declara ser. O produto é a prova, o ponto em que o discurso para de ser retórica e se torna algo que você toca, segura, usa. Já o ambiente é o contexto, o espaço que confirma ou contradiz tudo que foi dito antes.
O problema mais comum que vejo não é falta de qualidade em nenhuma dessas camadas. É falta de coerência entre elas. Uma marca com posicionamento forte, um produto genérico e uma loja que poderia ser de qualquer concorrente. Cada peça é razoável, mas o conjunto não diz nada.
A Tony’s é um dos casos recentes de operação simultânea que mais me chamaram a atenção. O vermelho certificado é uma decisão de marca. O molde assimétrico é uma decisão de produto. A super store é uma decisão de ambiente. Nenhuma das três contradiz as outras. Todas dizem a mesma coisa com linguagens diferentes.
É isso que separa design estratégico de design decorativo: não a qualidade de cada decisão isolada, mas a coerência do sistema.

O que os números mostram
| RECEITA 2024/25
€240M +20% ano a ano |
CRESCIMENTO EUA
+50% maior mercado em 2025 |
INVESTIMENTO MARKETING
2–3% contra 9–15% dos rivais |
MARKET SHARE HOLANDA
16,5% acima de Mars e Nestlé |
Esses números não são resultado de uma campanha bem executada, mas resultado de um sistema de design coerente, construído com a estratégia, não depois dela.
A diferença de verba é reveladora. Enquanto os concorrentes investem entre 9% e 15% da receita em marketing, a Tony’s opera com 2% a 3%. O que sobra vai para produto e experiência.
A Tony’s não é um case de branding criativo. É um case de disciplina estratégica. A marca nunca abriu mão do argumento central — nem quando cresceu, nem quando o mercado ficou mais competitivo, nem quando os preços do cacau explodiram.
Marcas que desafiam líderes não ganham por ter mais verba. Ganham quando criam um código visual que o líder não pode copiar sem contradizer o que ele próprio é. A Tony’s fez isso no produto, na embalagem e no espaço. E fez isso antes de qualquer campanha.
Design que entra no começo muda o resultado. Design que entra no fim arruma a aparência do que já estava decidido.
Renato Fregnani é fundador da Freg Design e presidente do Retail Design Institute Brasil.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagens: Divulgação















