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Home Artigos

O investidor é o stakeholder que decide se o varejo terá futuro

Hugo Bethlem de Hugo Bethlem
13 de fevereiro de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos

Na série sobre “A estratégia do varejo sob a ótica do Capitalismo Consciente”, já falamos dos papéis de  consumidor, cliente, fornecedor, comunidade e concorrência. Agora chegamos ao stakeholder mais mal interpretado — e, talvez, o mais decisivo: o investidor.

Muitas vezes, o investidor é visto como “o vilão” que só quer lucro, mas essa caricatura é injusta. Na verdade, o investidor é o stakeholder que assume o risco inicial para que uma empresa exista, cresça, gere empregos, pague impostos, inove e entregue valor ao mercado.

Sem investimento, não há expansão. Não há transformação digital. Não existe inovação. E, no limite, não existe futuro.

Investir é diferente de especular

O grande problema é que o mercado mistura duas figuras muito diferentes:

  • Investidores, que constroem valor no longo prazo;
  • Especuladores, que buscam ganhos rápidos e saem no primeiro pico.

A diferença é simples: o investidor joga o jogo infinito dos negócios. Já o especulador participa do jogo finito, com uma “linha de chegada” e saída planejada — muitas vezes, às custas da cultura, da reputação e da sustentabilidade do negócio.

E aqui está o ponto central: empresas que vivem para agradar o curto prazo deixam de construir o longo prazo.

Precisamos gerar valor para todos os stakeholders, e não apenas para o acionista, pois a nossa economia nunca desempenhará todo o seu potencial para as pessoas e para o planeta em um  sistema com incentivos desalinhados e uma cultura de normas adversas.

Mas há esperança, porque o futuro é algo que construímos juntos, em que todas as pessoas possam trabalhar com dignidade, cuidar de si e seus entes queridos, em que o nosso planeta seja saudável e as economias progridam. Esse, porém, é um trabalho de todos nós, com líderes conscientes que queiram transformar a si mesmos para poderem transformar suas empresas.

Para chegar lá, é necessário um esforço coletivo, com líderes conscientes dispostos a se transformar primeiro, para então transformar suas empresas e inspirar mudanças duradouras.

Porém, o tempo está passando. Como disse Kevin Roberts, em Love Marks: “a razão só me leva a mais conclusões. É a emoção que me leva à ação!”

Precisamos de uma revolução – uma “re-evolução” moral, não apenas cientifica e computacional. Um dos erros que mais destroem empresas é a tirania do trimestre

Ao abrir capital ou receber fundos, muitos varejistas descobrem uma dura realidade: “Quem tem sócio, tem patrão.” E, a partir daí, passam a conviver com um novo ator: o analista de mercado.

Gente inteligente, rápida, mas que muitas vezes olha para o negócio como uma foto do trimestre. Uma “Polaroid” de resultado, sem enxergar a jornada.

Quando CEOs passam a liderar apenas para agradar o trimestre, começam os efeitos colaterais:

  • cortes apressados em pessoas e qualidade;
  • promoções destrutivas para elevar vendas imediatas;
  • redução de investimento em inovação e experiência do cliente;
  • enfraquecimento da cultura;
  • e, no limite, a perda do propósito.

O resultado pode até parecer bom por algum tempo. Mas a conta chega.

Empresas conscientes escolhem seus investidores

Varejistas com propósito e visão de longo prazo precisam aprender algo essencial: nem todo dinheiro vale a pena.

Sempre que possível, as empresas devem “selecionar” seus investidores, deixando claro:

  • qual é o propósito do negócio;
  • quais são seus valores inegociáveis;
  • como pretende gerar valor para todos os stakeholders, e não apenas para o acionista.

Investidores alinhados com essa visão existem. E são os melhores sócios que uma empresa pode ter.

Capital próprio, crédito bancário e disciplina financeira

No varejo, as fontes de financiamento são conhecidas:

  • capital próprio dos acionistas;
  • crédito bancário;
  • fornecedores (prazos e negociação);
  • clientes (fidelidade e recorrência).

Mas o Brasil vive um cenário de juros elevados e custo de capital alto. Nesse contexto, a disciplina financeira deixa de ser apenas uma “boa prática” e vira sobrevivência.

O varejo tem margem baixa, e margem baixa não combina com alavancagem descontrolada.

IA muda tudo: o novo ativo não é só dinheiro

Se antes o investidor avaliava loja, expansão, ponto e logística, agora o valor passa a ser cada vez mais intangível. A Inteligência Artificial mudou o jogo. O capital no risco agora inclui:

  • dados confiáveis e bem governados;
  • capacidade analítica para prever demanda, reduzir rupturas e perdas
  • produtividade com eficiência e escala;
  • novas formas de relacionamento com o cliente

Mas como a IA impacta os investidores e negócios?

  • A IA muda o “motor” do valor — do capital físico para dados, modelos e intangíveis;
  • A IA pode ampliar a desigualdade e a “redundância” humana — o investidor consciente precisa endereçar isso;
  • O risco novo: confiança (deepfakes, desinformação) e integridade dos números;
  • A tirania do trimestre tende a piorar ou a se transformar;
  • A seleção de investidores fica mais relevante — e agora inclui “maturidade digital e ética”;
  • ESG e IA se encontram: as métricas ficam mais mensuráveis — e o investidor vai cobrar evidência;
  • Novo stakeholder crítico: o “trabalhador impactado por IA”.

Perguntas que conselhos e investidores deveriam fazer

Para fechar com força prática, proponho que as empresas criem um quadro, algo do tipo “Checklist do investidor consciente na Era da IA”:

  • Onde a IA gera valor comprovável no core (giro, perdas, ruptura, produtividade, experiência do cliente)?
  • Quais decisões não serão automatizadas (limites éticos)?
  • Quais dados alimentam os modelos e como garantir qualidade, privacidade e segurança?
  • Qual é o plano de requalificação e redesenho do trabalho?
  • Como evitamos a tirania do curto prazo usando IA para simular cenários e resiliência?

Ou seja, os investidores e conselhos precisam perguntar menos: “Quanto você cresceu este trimestre?” e mais: “Você está construindo vantagem competitiva para os próximos 10 anos?”

O investidor consciente quer retorno, mas também quer perenidade. Não existe empresa saudável sem lucro. E não existe investidor sem expectativa de retorno.

Mas o capitalismo do século 21 exige um ajuste fundamental: o lucro não pode ser o objetivo final. Ele deve ser uma consequência.

Empresas que cuidam bem dos seus stakeholders — clientes, colaboradores, fornecedores, comunidade e planeta — tendem a gerar resultados mais sustentáveis e, no longo prazo, retornos superiores.

Esse é o verdadeiro paradoxo: quando a empresa pensa além do acionista, gera mais valor para o próprio acionista.

Liderança consciente: o elo entre propósito e rentabilidade

No final, tudo volta ao líder. O líder consciente não lidera para agradar o trimestre. Ele lidera para construir um legado. Ele entende que:

  • cultura é ativo estratégico;
  • confiança é valor econômico;
  • propósito é vantagem competitiva;
  • e retorno sustentável nasce de relações sustentáveis

Como disse Dan Schulman, ex-CEO da PayPal: “Ter propósito e ser uma empresa lucrativa não são incompatíveis. Eles andam de mãos dadas.”

E eu acrescento: “Propósito sem lucro é hobby. Lucro sem propósito é risco.”

O investidor é herói quando aposta na construção, não no saque

Acredite: investir é diferente de especular. O primeiro constrói e gera valor, o segundo destrói e gera perdas. Investir é acreditar no futuro; especular é apenas tentar capturar o presente.

O varejo brasileiro precisa de mais investidores que tenham coragem de construir, e de menos capital apressado por extrair porque, no jogo infinito dos negócios, o maior prêmio não é o resultado do trimestre. É a capacidade de continuar existindo — e gerando prosperidade — daqui a 20 anos.

Hugo Bethlem é presidente do Capitalismo Consciente Brasil.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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Hugo Bethlem

Hugo Bethlem é senior advisor para varejo na Alvarez & Marsal Performance, presidente do Capitalismo Consciente Brasil e mentor de executivos e startups.

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