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Home Artigos

2026, um dos anos mais desafiadores para o varejo

Jorge Gonçalves Filho de Jorge Gonçalves Filho
13 de maio de 2026
no Artigos
Tempo de leitura: 6 minutos
varejo

O varejo sempre foi desafiador, em todos os setores de atuação e em todas as épocas. Em especial, neste 2026, está ainda mais desafiador, porque vários fatores que vão além de uma boa administração empresarial, de estratégias criativas de marketing e de campanhas de preços atrativos estão interferindo no ambiente de negócios.

Entramos neste ano com o ritmo de vendas morno, haja vista o lento crescimento de 2,4% no primeiro trimestre, segundo dados setoriais e indicadores econômicos, que previam crescimento do PIB de 2,0%, mas que agora foi recalculado para 1,85% (Relatório Focus), e uma inflação de 3,91%, também revisada para 4,91%.

Caminhamos à sombra de um provável crescimento da inflação, potencializado pelos efeitos da guerra entre EUA e Irã; de uma taxa de juros Selic inaceitável de 14,50% ao ano, que consome grande parte do resultado das empresas e reduz sobremaneira a oferta de crédito e, consequentemente, o consumo; e de dois fatores ainda mais contundentes: a recente retirada do Imposto de Importação de 20% nas vendas cross border e a eventual redução da jornada e da escala de trabalho.

Com relação à retirada, pelo governo, do imposto de 20% nas vendas cross border feitas por plataformas eletrônicas estrangeiras, conhecido como “taxa das blusinhas”, mas que de fato alcança centenas de outros produtos além do têxtil, é preciso considerar que esse imposto sequer conseguia equilibrar as condições de competitividade necessárias aos produtos fabricados e vendidos no País, que pagam cerca de 92% de carga tributária.

A disparidade de taxação entre o produto importado e o fabricado e vendido no Brasil já era enorme; agora, é gigantesca. O Brasil vai proteger quem produz lá fora e desproteger quem produz e emprega aqui. Sobre este tema, é bom ressaltar que o varejo nacional nunca quis privilégios, mas sim isonomia tributária. Se houver zero de Imposto de Importação na venda cross border, é preciso haver zero de imposto também para o produto nacional com preço de até US$ 50.

Praticamente todas as associações e institutos empresariais têm estudado e anunciado as prováveis consequências da eliminação do Imposto de Importação. Muito provavelmente, haverá queda significativa nas vendas dos produtos nacionais no mercado interno, prejudicando negócios de todos os portes, mas principalmente o pequeno e o médio varejos, que não conseguirão competir com os produtos importados, em boa parte subfaturados e ainda com imposto zero. Consequentemente, o varejo brasileiro venderá menos ao consumidor e comprará menos para os estoques. O impacto poderá ser sentido nas indústrias, provocando desemprego, fechamento de empresas ou transferência de produção para países fronteiriços.

Quando da introdução do Imposto de Importação, o benefício foi marcante; no primeiro ano de sua implantação, foram criados, somente no varejo, 107 mil empregos, além de melhorias nas vendas e nos investimentos. Em toda a cadeia de fornecimento até a ponta do varejo também houve aumento de produtividade e não ocorreu, na média, crescimento de preços acima da inflação, beneficiando o consumidor, que optou por comprar o produto nacional. Logo, progrediram as empresas, a geração de empregos e os consumidores, que passaram a adquirir produtos nacionais com preços atrativos, qualidade, certificação e garantia. Ainda assim, nada disso foi considerado por quem desejou zerar novamente o Imposto de Importação.

Outro ponto é a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas – obviamente sem considerar qualquer possibilidade de redução para 36 horas – sem redução salarial, além da eliminação da escala de trabalho 6×1, passando para 5×2. Essa discussão é um ponto de forte resistência no setor de comércio e serviços pelo impacto direto no custo da folha e na escala de atendimento.

Um olhar calculado sobre este tema mostra, de forma inquestionável, que a redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, gerará um aumento aproximado de 10% no custo da mão de obra, e a mudança da escala de trabalho de 6×1 para 5×2 também acarretará, na média e dependendo do setor, aumento de 13% no custo da folha de pagamento. Não vamos entrar aqui na discussão de que todo trabalhador merece descansar o máximo possível. É claro que sim. Mas, se esta mudança acontecer, teremos um País em que se descansará aproximadamente um terço do período anual e se trabalhará dois terços do tempo. A economia brasileira suportará esta transformação?

Conjugando os efeitos da redução da jornada para 40 horas, sem redução salarial, e da mudança da escala para 5×2, diversos estudos técnicos que circulam pelo País apontam aumento de despesas com a folha de pagamentos entre 20% e 23%.

O impacto combinado da isenção do Imposto de Importação no cross border somado à redução da jornada e da escala de trabalho criará um cenário de pressão sem precedentes sobre a operação e a sobrevivência das empresas. Com este cenário impulsionado pelo calendário eleitoral, como ficarão o ambiente de negócios e a confiança do empreendedor?

Embora se diga que, em economia, tudo se ajusta com o tempo, a que custo? O fim do Imposto de Importação e a eventual redução da jornada e da escala de trabalho acarretarão riscos para a economia, cujas consequências poderão comprometer a viabilidade das empresas e o emprego de milhares de trabalhadores, não apenas no presente, mas também em um futuro muito próximo.

Jorge Gonçalves Filho é presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV).
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagem: Envato.

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Jorge Gonçalves Filho

Jorge Gonçalves Filho

Jorge Gonçalves Filho é presidente do IDV - Instituto para Desenvolvimento do Varejo e consultor empresarial na Telhanorte Tumelero. Em sua carreira profissional, foi diretor de Expansão e Novos Negócios da Telhanorte Tumelero (Saint Gobain Distribuição Brasil), consultor empresarial da Efeso Consulting, diretor-geral da C&C Casa e Construção, superintendente na Jatobá S.A. Indústria de Revestimentos Cerâmicos, gerente nacional na Incepa revestimentos cerâmicos e gerente-geral na Elevadores Atlas/Schindler. Jorge também é conselheiro da Associação dos Comerciantes de Materiais de Construção - SP e membro do IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

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