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Home Artigos

O consumo brasileiro entre forças opostas

Eduardo Yamashita de Eduardo Yamashita
22 de maio de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 4 minutos

O consumo no Brasil vive hoje uma dinâmica paradoxal. Ao mesmo tempo que Nunca tivemos um mercado de trabalho aparentemente tão forte, mas, ao mesmo tempo, o varejo e diversos segmentos de consumo seguem apresentando uma performance abaixo do esperado. O desemprego em mínimas históricas e o crescimento real da renda deveriam impulsionar o consumo, mas, na prática, o consumidor continua pressionado, seletivo e com baixa capacidade de expansão de gasto.

Esse cenário mostra que olhar apenas para os indicadores tradicionais já não é suficiente para entender o comportamento do mercado e as dinâmicas de consumo têm se tornado cada vez mais complexas.

O emprego cresce, mas a percepção do consumidor não acompanha

A taxa de desemprego no Brasil está na mínima histórica e alcançou o patamar de pleno emprego,  situação em que as pessoas que querem trabalhar encontram vagas disponíveis. Esse dado, isoladamente, sugeriria um ambiente extremamente positivo para o consumo. Porém, é importante observar com atenção a metodologia da pesquisa do IBGE e as mudanças estruturais no mercado de trabalho.

Pela metodologia atual, é considerada ocupada qualquer pessoa que tenha realizado pelo menos uma hora remunerada na semana anterior à pesquisa, método que não considera o subaproveitamento do trabalho. Há ainda um outro componente pouco discutido, que é o receio da perda de benefícios sociais, já que parte da população evita a formalização ou a declaração de atividades remuneradas por medo de deixar de acessar programas de assistência. mbora não seja possível medir quantitativamente o impacto dessa variável nos indicadores, ela também não pode ser desconsiderada.

Outro dado amplamente divulgado é o crescimento real da massa salarial. O indicador aponta que a renda total das famílias cresceu cerca de 9,3%, já descontada a inflação, na comparação entre o primeiro trimestre móvel de 2025 e o mesmo período do ano anterior, alcançando R$ 374,8 bilhões.

Fonte IBGE, com adaptação e análise Gouvêa Inteligência

Entretanto, o cálculo do ganho real da renda utiliza como referência a inflação medida pelo IPCA, o que pode gerar uma desconexão importante entre os indicadores econômicos e a percepção do consumidor. Isso porque a inflação percebida pelas famílias, especialmente das classes média e baixa, muitas vezes, é significativamente maior.

Itens essenciais como alimentos, transporte, moradia, energia, saúde e serviços básicos têm um peso emocional e financeiro superior no orçamento real das famílias. Como resultado, na prática, o consumidor não sente um aumento de renda proporcional ao divulgado nos indicadores macroeconômicos.

A renda cresce, mas o orçamento está cada vez mais comprometido

Outro fator central para entender o comportamento atual do consumo é a qualidade da renda disponível, já que uma parcela relevante do orçamento das famílias brasileiras está comprometida com o elevado nível de endividamento, enquanto o comprometimento de renda com pagamento de juros continua em patamares historicamente altos.

Ao mesmo tempo, o Brasil atingiu o maior número de inadimplentes da história recente. Milhões de consumidores convivem com restrições financeiras, dificuldade de acesso a crédito e necessidade constante de reorganização do orçamento. É razoável dizer que dos 155 milhões de brasileiros com mais de 16 anos, 81,7 milhões (ou 53%) não têm nenhuma renda discricionária para gastar,  pois estão inadimplentes, ou seja, possuem dívidas em atraso há mais de 90 dias.

Fonte Serasa, com adaptação e análise Gouvêa Inteligência

Esse cenário produz um efeito direto sobre o consumo discricionário. Antes de consumir, uma parte crescente da renda está sendo direcionada ao pagamento de dívidas, juros, recomposição de orçamento doméstico e de novas categorias de gasto. Entre essas novas categorias, um fenômeno que chama a atenção é o crescimento acelerado das apostas esportivas e das plataformas de bets, que passaram a disputar espaço dentro do orçamento familiar com entretenimento, alimentação fora do lar, moda e outros segmentos de consumo. Em muitos casos, principalmente nas classes de menor renda,  passaram a absorver uma parcela relevante da renda disponível mensal.

Esse cenário produz um efeito direto sobre o consumo discricionário. Antes de consumir, uma parcela crescente da renda está sendo direcionada ao pagamento de dívidas, juros, recomposição do orçamento doméstico e também a novas categorias de gasto.

Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril de 2026, 29% dos brasileiros afirmaram ter o hábito de realizar apostas esportivas pela internet. A incidência é ligeiramente maior entre homens, moradores das regiões Sul e Sudeste e pessoas com escolaridade até o ensino médio.

Esse é um movimento estrutural importante. O orçamento do consumidor não apenas ficou mais apertado, ele também passou a ser dividido com novas formas de consumo digital e entretenimento.

Cenário do consumo

Os impactos dessa combinação de fatores já aparecem claramente no desempenho dos segmentos de consumo.

Em grande parte do varejo, o crescimento nominal segue sendo impulsionado muito mais pela inflação do que do aumento real de volume. Na prática, vende-se menos unidades, mas a preços mais altos. Isso explica por que muitos segmentos apresentam crescimento de faturamento acompanhado de queda de tráfego e redução de volume. O consumidor continua comprando, mas compra menos, pesquisa mais, troca marcas e busca maximizar cada real gasto.

Ao mesmo tempo, segmentos dependentes da classe média vêm sofrendo mais pressão. Moda intermediária, bens discricionários, restaurantes e parte do varejo especializado enfrentam um consumidor mais seletivo e menos impulsivo.

Os indicadores mostram um Brasil melhor, com emprego e renda em alta, mas o consumidor ainda sente um País difícil, pressionado pelo custo de vida, pelo endividamento e pela falta de sensação de avanço financeiro.

Em um cenário de consumo mais seletivo, orçamento apertado e decisões de compra cada vez mais racionais, crescer não depende apenas de vender mais, mas de conquistar relevância real e prioridade na escolha do consumidor.

Eduardo Yamashita é sócio-diretor da Gouvêa Inteligência.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagens: Envato e Reprodução

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Eduardo Yamashita é COO da Gouvêa Ecosystem, empresa que contribui para a expansão e a transformação do mercado de consumo e varejo brasileiro com uma plataforma estratégica de unidades de negócios, produtos e serviços.

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