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Home Artigos

Quando a confiança não desaparece, ela se torna escassa

Hugo Bethlem de Hugo Bethlem
12 de maio de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 6 minutos
confiança

Vivemos um tempo curioso. Em meio a incertezas econômicas, transformações tecnológicas aceleradas e tensões sociais crescentes, uma pergunta começa a aparecer com mais frequência nos conselhos e nas lideranças: o que sustenta uma organização quando tudo parece instável?

Um recente artigo da IMD Business School trouxe uma reflexão poderosa: “em tempos incertos, a confiança não desaparece, ela se torna mais rara”. E essa frase, simples à primeira vista, carrega uma implicação profunda para o varejo e para o modelo de capitalismo que escolhemos praticar.

Confiança: o ativo invisível mais valioso do varejo

O varejo sempre foi, essencialmente, uma relação de confiança. O cliente entra na loja — física ou digital — acreditando que:

  • O produto entrega o que promete;
  • O preço é justo;
  • O atendimento é carinhoso;
  • A marca respeita sua escolha;
  • A experiência vale o seu tempo.

Quando essa confiança existe, o negócio cresce. Quando ela se rompe, o impacto é imediato — e, muitas vezes, irreversível.

O ponto central é que, em momentos de estabilidade, a confiança é quase invisível. Ela está ali, operando em segundo plano. Mas em tempos de incerteza, se torna o principal diferencial competitivo.

Confiança é a base fundamental para construir um time de alta performance, sendo aquilo que une as pessoas em busca de um objetivo comum. Não é apenas trabalhar juntos, isso não forja uma equipe, o que realmente a diferencia é quando uns confiam nos outros, incluindo a liderança e vice-versa.

Confiança leva anos para ser conquistada, sendo um processo de repetição e consistência, mas leva segundos para ser destruída. Dessa forma, como uma empresa de varejo deve se comportar em tempos de incertezas, política, econômica, legislativa, de guerras, polarizações e extremismos?

Esse é o momento de a liderança assumir seu verdadeiro papel de cuidar das pessoas e dar a elas algo para acreditarem, muito além de algo para executarem.

O novo contexto: excesso de informação, escassez de confiança

Hoje, o consumidor tem acesso a tudo:

  • Preços em tempo real;
  • Avaliações de outros clientes;
  • Comparações instantâneas;
  • Exposição pública de erros das empresas.

Paradoxalmente, quanto mais informação temos, menor parece ser a confiança. Isso acontece porque a confiança não nasce de dados. Ela nasce de coerência ao longo do tempo.

E aqui está um ponto crítico para o varejo: não existe confiança sustentável sem consistência entre discurso e prática. Mas há uma camada ainda mais profunda nesse fenômeno.

Nunca foi tão fácil parecer confiável — e nunca foi tão difícil ser confiável de fato. As empresas aprenderam a comunicar propósito, posicionamento e valores com enorme sofisticação,mas o consumidor aprendeu algo ainda mais poderoso: verificar, comparar e expor incoerências em tempo real.

Lembrando que sempre o decisor da relação comercial com o varejo é justamente o consumidor. E isso muda completamente o jogo.

Antes, a confiança era construída pela narrativa. Hoje, ela é construída por evidências. Antes, bastava se  comunicar bem. Hoje, é preciso operar bem, de forma consistente e visível. É aqui que muitas organizações se perdem porque continuam investindo desproporcionalmente em:

  • Branding;
  • Campanhas;
  • Discursos institucionais.

Quando o verdadeiro campo de construção da confiança está em:

  • Processos;
  • Decisões do dia a dia;
  • Experiência real do cliente;
  • Relação com colaboradores e fornecedores.

No fundo, o consumidor moderno não quer mais promessas. Ele quer prova de comportamento constante. E prova de comportamento não se constrói em um momento, ela se constrói na repetição.

É a soma de pequenas entregas consistentes que gera confiança. Da mesma forma, é a soma de pequenas incoerências que a destrói. Talvez a grande mudança de paradigma seja justamente esta: a confiança deixou de ser apenas um ativo de comunicação para se tornar um ativo operacional.

E, no varejo, isso é ainda mais crítico. Porque o varejo é frequência. É recorrência. É contato constante.

Ou seja, é o ambiente onde a confiança é testada todos os dias. E, em um cenário de excesso de informação, o cliente não precisa mais “desconfiar”. Ele simplesmente troca.

Capitalismo Consciente: confiança como consequência, não como estratégia

Dentro da lógica do Capitalismo Consciente, a confiança não é um objetivo isolado. Ela é uma consequência de quatro pilares bem conhecidos:

  • Propósito maior;
  • Liderança consciente;
  • Cultura organizacional saudável;
  • Orientação para stakeholders.
Quando esses elementos estão alinhados, a confiança emerge de forma natural. Mas, quando não estão, o que vemos é o oposto:
  • campanhas que prometem mais do que entregam
  • iniciativas ESG desconectadas da operação
  • discurso institucional distante da experiência real do cliente

Em outras palavras, a confiança não se constrói com comunicação — se constrói com comportamento.

O varejo sob pressão: decisões de curto prazo versus confiança de longo prazo

Em momentos de crise, a tentação é clara:

  • Reduzir custo a qualquer preço;
  • Demitir colaboradores;
  • Pressionar fornecedores;
  • Simplificar a experiência;
  • Priorizar o resultado imediato.

Nada disso é novo, mas o risco hoje é maio porque cada decisão de curto prazo pode corroer um ativo que leva anos para ser construído: a confiança. E aqui surge uma tensão fundamental que os conselhos e executivos precisam saber gerir: maximizar resultado no curto prazo sem destruir a confiança no longo prazo.

O papel da liderança: guardiã da confiança

Confiança não é um tema de marketing. É um tema de liderança e de conselho. São as decisões do dia a dia que determinam se a organização fortalece ou enfraquece esse ativo. Lideranças conscientes entendem que:

  • Confiança se constrói nos detalhes;
  • Coerência é mais importante do que perfeição;
  • Transparência é mais poderosa do que controle

E, principalmente, reconhecem que, em tempos de incerteza, as pessoas observam mais o comportamento do que escutam o discurso.

A equação da confiança no varejo

Se tivermos que simplificar, a confiança no varejo hoje pode ser entendida como uma equação:

Confiança = Consistência + Transparência + Respeito ao cliente + Relação justa com fornecedores + Cuidado com colaboradores

Uma fórmula complexa, com inúmeras variáveis, mas que, quando realmente alinhada, é muito poderosa. Por outro lado, quando um desses elementos falha, o sistema como um todo se fragiliza. Aliás, como se diz: “toda corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco”.

E, como o artigo da IMD sugere, não é que a confiança desapareça — ela simplesmente deixa de ser abundante.

Conclusão: confiança como vantagem competitiva real

Em um mundo onde tudo pode ser copiado — preço, sortimento, tecnologia —, a confiança permanece como um dos poucos ativos verdadeiramente diferenciadores. E talvez a grande reflexão para o varejo seja esta: não estamos competindo apenas por market share. Estamos competindo por confiança.

Empresas que entenderem isso não apenas sobreviverão aos ciclos de incerteza, mas sairão deles mais fortes.

Estamos vivendo em um mundo Bani, pós-pandemia da covid-19, que é frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Por isso, a confiança será o pilar para que a empresa navegue nesse novo mundo.

Porque, no fim, o cliente pode até mudar de canal, de marca ou de produto, mas  ele só permanece onde existe confiança.

Hugo Bethlem é presidente do Capitalismo Consciente Brasil.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato

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Hugo Bethlem

Hugo Bethlem

Hugo Bethlem é senior advisor para varejo na Alvarez & Marsal Performance, presidente do Capitalismo Consciente Brasil e mentor de executivos e startups.

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