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Home Artigos

O fim da coleção como unidade de negócio

Cecília Rapassi de Cecília Rapassi
4 de março de 2026
no Artigos, Destaque do dia
Tempo de leitura: 4 minutos
O fim da coleção como unidade de negócio

Durante décadas, a coleção foi o eixo organizador da indústria da moda. Ela estruturava o calendário criativo, orientava o desenvolvimento de produto, organizava vendas e oferecia previsibilidade financeira.

Mas uma pergunta começa a ganhar relevância: O consumidor consome por coleção, ou apenas a indústria continua operando assim?

O modelo de coleções nasceu em um contexto de ciclos estáveis, estações relativamente previsíveis e menor volatilidade cultural e comercial. A lógica fazia sentido quando o comportamento de consumo mudava lentamente e o clima seguia padrões mais regulares.

Hoje, o calendário permanece. O ambiente que o sustentava, não.

E esse desalinhamento começa a expor um dos principais pontos de tensão nas marcas de vestuário e calçados.

Quando o calendário deixa de organizar e passa a gerar risco

Desenvolver uma coleção pode levar entre seis e nove meses, considerando criação, prototipagem, negociação de insumos e produção.

Quando o produto chega à loja, múltiplas variáveis já se transformaram. O clima já não responde às estações tradicionais. Invernos encurtam, ondas de calor se prolongam e eventos extremos alteram abruptamente o comportamento de compra. Peças planejadas para temperaturas específicas simplesmente deixam de encontrar contexto de uso.

Ao mesmo tempo, o humor do consumidor muda em ritmo acelerado, influenciado por dinâmicas culturais, sociais e digitais impossíveis de antecipar com tanta antecedência.

Persistir em decisões tomadas quase um ano antes da venda significa assumir um nível crescente de imprevisibilidade — não criativa, mas operacional.

Nesse cenário, o calendário deixa de ser uma ferramenta de organização e passa a ser um fator silencioso de risco.

 Lead time longo é, antes de tudo, concentração de aposta

Quanto maior o tempo entre decisão e venda, maior a dependência de previsão. E a previsão, hoje, tornou-se o ativo mais frágil da moda.

Modelos operacionais como o da Zara não se destacam apenas pela velocidade, mas pela redução do intervalo entre observar e responder. O desenvolvimento contínuo permite ajustar rotas ao longo da temporada, diluindo riscos que antes ficavam concentrados em uma única coleção.

A Shein radicalizou essa lógica ao operar com microlotes e leitura quase diária de demanda. Independentemente das críticas legítimas ao modelo, existe um aprendizado relevante para toda a indústria: estruturas baseadas em grandes apostas antecipadas tornam-se cada vez mais vulneráveis em ambientes instáveis.

O excesso de estoque que pressiona margens raramente nasce na loja. Ele começa meses antes, no momento em que se decide produzir volume sem validação real de demanda.

Nos últimos anos, a própria Nike revisou parte de sua estratégia após enfrentar desequilíbrios relevantes de estoque. O movimento reforça uma mudança importante: a proximidade contínua com o consumidor tende a gerar mais eficiência do que grandes ciclos de lançamento espaçados.

O desafio brasileiro: velocidade não se copia

Reduzir o lead time no Brasil está longe de ser uma decisão simples. A tentativa da Shein de estruturar o País como polo produtivo para a América Latina evidenciou isso. Mesmo com investimentos robustos e parcerias industriais anunciadas, o avanço ocorreu em ritmo inferior ao esperado diante de entraves logísticos, custos estruturais e fragmentação da cadeia produtiva.

O país não possui a integração industrial observada em mercados como Espanha ou China. A dependência de insumos importados, a complexidade tributária, a volatilidade cambial e a limitação de mão de obra especializada ampliam prazos e reduzem flexibilidade operacional.

Tecidos precisam ser programados com meses de antecedência. Fornecedores operam com margens comprimidas. A capacidade produtiva responde mais lentamente às oscilações de demanda.

Nesse contexto, encurtar ciclos exige redesenhar relações com fornecedores, investir em previsibilidade de insumos e, principalmente, reduzir o tamanho das apostas iniciais.

A variável que o calendário ignorava: a crise climática

Existe ainda um fator estrutural que torna o modelo tradicional de coleções progressivamente obsoleto: as mudanças climáticas.

A moda foi construída sobre a previsibilidade das estações. Primavera/verão e outono/inverno funcionavam como referências relativamente confiáveis para planejamento e compra.

Essa lógica já não se sustenta. Temperaturas fora do padrão, sazonalidades indefinidas e eventos climáticos extremos reduzem drasticamente a relevância de coleções pensadas meses antes para condições específicas. O desencaixe deixa de ser apenas comercial e torna-se sistêmico.

Planejar grandes volumes com base em estações fixas, em um clima cada vez menos previsível, amplia o risco de estoque parado e acelera ciclos de remarcação.

Repensar o papel da coleção passa, portanto, não apenas por eficiência operacional, mas também por adaptação a uma nova realidade ambiental.

A coleção como narrativa, não como engrenagem

Isso não significa o desaparecimento da coleção. Ela continua sendo fundamental para construir identidade, posicionamento e storytelling de marca. O que muda é sua função dentro do negócio.

A coleção pode organizar a narrativa, mas não precisa determinar o ritmo operacional. Operações mais resilientes tendem a combinar:

  • calendários mais flexíveis;
  • entradas contínuas de produto;
  • produções calibradas por desempenho real;
  • menor concentração de investimento em um único momento do ano.

O mercado atual não penaliza a ausência de novidade constante. Ele penaliza o excesso de estoque errado. Portanto, a reflexão que fica é que o próximo salto competitivo pode estar na gestão do tempo.

Enquanto o setor continuar operando a partir de calendários concebidos para um contexto climático, cultural e comercial que já não existe, seguirá enfrentando uma defasagem estrutural entre desejo e entrega.

A coleção não desaparece, mas deixa, gradualmente, de ser a unidade central de decisão do negócio.

As empresas que entenderem essa transição e conseguirem ajustar o seu modelo de negócio a esse contexto, tendem a operar com menos erro, menos desperdício e maior performance em vendas.

Cecília Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Imagens: Envato

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Cecília Rapassi

Cecília Rapassi

Cecilia Rapassi é consultora de Negócios na área de Moda e Professora de pós-graduação em Fashion Business na Faap. É especialista em gestão, expansão de marcas no canal B2B e desenvolvimento de estratégias comerciais. Fez parte do grupo de sócios da Gouvêa Ecosystem, onde fundou a Gouvêa Fashion Business, liderando projetos de consultoria estratégica, curadoria de eventos e iniciativas voltadas ao fortalecimento do varejo de moda nacional.

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